Negra palavra no negro continente

Coletivo carioca leva três espetáculos, oficina e roda de samba ao Festival Internacional de Teatro do Cazenga, em Angola

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Após quase sete anos de trajetória dedicados à valorização da cultura negra brasileira, o Complexo Negra Palavra se prepara para um dos momentos mais simbólicos de sua história: a participação no 21º Festival Internacional de Teatro do Cazenga (Festeca), em Luanda, Angola. A partir desta sexta (3), o coletivo apresentará espetáculos, shows musicais, oficinas e atividades de intercâmbio artístico-cultural, celebrando a resistência afrodiaspórica.

Convidado pelo quarto ano consecutivo pela Associação Globo Dikulu e pelo Centro de Animação Artística do Cazenga (ANIM'ART), o grupo finalmente concretiza uma parceria construída desde 2022, quando recebeu em sua ocupação artística, no Rio, montagens angolanas que deram início a uma relação de troca e colaboração entre os dois países. A ida ao festival em 2026 foi possível por meio do Programa Funarte Brasil Conexões Internacionais e da Bolsa Funarte de Mobilidade Artística Internacional, que viabilizou a circulação do grupo.

Inspirados no pensamento do intelectual quilombola Nêgo Bispo, o grupo acredita que levar um espetáculo de samba, protagonizado por um elenco exclusivamente negro, de volta ao solo africano, é uma missão diplomática.

"Segundo Nêgo Bispo 'Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio. Ao contrário: ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece'. Acreditamos que esse projeto reverencia a profundidade da diáspora africana no Brasil, onde a cultura, cantos, batuques e o culto aos orixás, foram o bálsamo de resistência que permitiu aos povos escravizados manterem o pertencimento. Dessa matriz ancestral surgiram as principais manifestações culturais do nosso país, tendo no samba seu pilar fundamental de identidade", diz o o grupo em comunicado.

A programação do Complexo Negra Palavra em Angola inclui os espetáculos "Negra Palavra Poesia do Samba", "Negra Palavra Solano Trindade" e o solo "Voar é o que me põe de pé", protagonizado por Olívia Araújo. O grupo também vai conduzir a oficina "Pedagogia Negra Palavra" e realizar a sua roda de "Samba do Negra". Além das apresentações, toda a experiência em Angola será registrada para a produção de um minidocumentário. As atividades serão realizadas em diálogo com artistas e comunidades locais, promovendo uma troca de saberes entre territórios periféricos que compartilham heranças culturais e desafios sociais semelhantes.

O grupo surgiu em 2019 com o sucesso de "Negra Palavra Solano Trindade", espetáculo dedicado à obra do "Poeta do Povo", vencedor dos prêmios APTR (RJ), Troféu Arcanjo (SP) e Leda Maria Martins (MG), com seis temporadas e circulação por oito festivais e nove eventos no Brasil. Em 2023, estreou "Pelada - A Hora da Gaymada", que conquistou o Prêmio Shell de Teatro (Música) e três categorias do Prêmio Prio do Humor, além de circular por editais e festivais como a Virada Cultural de SP. Em 2025, ampliou sua pesquisa com o infantil "Solaninho - uma viagem com o poeta do povo", indicado a prêmios como APTR e CBTIJ. Seu espetáculo mais recente é o "Negra Palavra Poesia do Samba", que estreou em quadras de escolas de samba, e posteriormente ficou em cartaz em diversos teatros do Rio, recebendo a indicação aos prêmios Shell e APTR.