Dialéticas eclesiásticas

Por por Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

O excelente texto de Anthony McCarten foi também roteirizado pelo próprio no filme homônimo, com várias indicações ao Oscar, Globo de Ouro e Bafta, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. Uma dicotomia eloquente instaura-se: o Papa Bento XVI é um intelectual conservador, com empatia rasurada, responsável pela crise de imagem da Igreja Católica, enquanto o Papa Francisco desvela-se como um progressista, popular, humano, defensor dos empobrecidos e marginalizados.

Discussões sobre casos de pedofilia envolvendo padres, celibato, homossexualidade, ditadura militar, presença das mulheres na hierarquia clerical, desaguam numa profunda humanidade que, apresentam sobretudo, dois homens exaustos da carreira eclesiástica. Na projetada aproximação de ambos, Joseph Ratzinger, o então Papa Bento XVI, projetara seu desembarque da função, sentindo-se pouco vocacionado e sem o traquejo esperado para elaborar escândalos financeiros no Vaticano, diante do seu rigorismo de dogmas.

Já o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, que viria a ser o Papa Francisco, vai até a Itália inclinado a aposentar-se, apesar da popularidade, mas aflito com um passado que insiste em atormentá-lo por conta de suas posturas na ditadura militar argentina e por discordar das posições do líder supremo mundial da Igreja Católica. Apesar de tensões, o clima de enfrentamento vai além das diferenças. Surpreendentemente, Bergoglio é visto por Bento como um novo modelo ideal, a fim de reparar seu próprio ideário clérigo, num diálogo equalizado por humor, abnegação e humanização.

Há uma sofisticação na direção de Munir Kanaan que expande-se para toda a extensão da montagem, seja no aspecto plástico quanto no encadeamento das cenas. Mudanças são bem solucionadas com limpeza, imagens reais dos Papas, além do videomapping de André Grynwask, com extremo bom gosto, que enobrece a encenação, como imagens da Capela Sistina, que aquece o espírito, tomando a caixa cênica no olhar estupefato de Bergoglio.

Mas é no poder das interpretações que o espetáculo ganha personalidade. A contracena dos talentosos Zé Carlos Machado e Celso Frateschi é estupenda. Duas feras do palco paulistano abrilhantam-se em construções de alta categoria. A audiência permanece impactada pela inteligência cênica e apuro técnico de ambos. Vale ressaltar que a presença poderosa de Eliana Guttman nos faz torcer para que ela volte mais vezes em cena, além da firmeza de Carol Godoy, pelas quais temos a nítida sensação de que seus papéis também representam no palco a negação da liturgia católica.

Estruturas brancas e ascéticas retratam a atmosfera espiritual, na cenografia de Eric Lenate, que proporciona ambiências distintas. O figurino de Carol Roz reproduz a beleza da secular vestimenta religiosa. Beto Bruel corrobora, como sempre, para dar luz exata ao que deve ser focado.

"Dois Papas" é sóbrio e ao mesmo tempo embriaga-se do melhor teatro.