Jorge Caetano: 'O palco é o lugar onde posso colocar o corpo inteiro em risco'
Cunha-se um verbo coerente com os tempos atuais (e urgente), o verbete "apocalipsar" (cujo significado seria "atravessar o fim em busca de algo novo"), na nova aventura teatral de Jorge Caetano: "Apocalip-se". É cheio de som e de fúria, com tudo o que esse multiartista carioca gosta de encarar. Com texto inédito de Julia Spadaccini, em parceria com Marcia Brasil, a peça estreia no Teatro Poeira, neste 2 de julho, debatendo solidão, tecnologia e saúde mental numa linha de reconexão humanista, para além da dependência digital nossa de todo dia. Concebida como um musical, a montagem mistura teatro, rock e audiovisual a fim de retratar o fim do mundo não como destruição, ou praga bíblica, mas como transformação da consciência.
Idealizador, protagonista e codiretor do espetáculo (com Alexandre Mello), Caetano vive um homem solitário aprisionado pela lógica do consumo e pelos vícios que o celular gera. Desde a pandemia, ele permanece isolado, relacionando-se apenas com uma assistente virtual, vivida ada por Nina da Costa Reis. Incapaz de estabelecer vínculos reais, o sujeito encontra na música a única possibilidade de comunicação genuína com o mundo.
Movido por uma inquietude multimídia de quem se divide entre as artes plásticas, as artes cênicas e o cinema, Jorge Caetano já colecionou aplausos e elogios da crítica ao surpreender o teatro carioca em metamorfoses de si mesmos. Brilhou em "A Porta da Frente" (2013), "Aos Domingos" (2013) e "Os Estonianos" (2008). Reinventa-se ainda em vários filmes que fez (e faz) com o casal Patrícia Niedermeier e Cavi Borges, como o belíssimo "Fado Tropical" (2019).
Na entrevista a seguir, Caetano - que nasceu na Penha, cresceu em Caxias e fez teatro entre o Tablado e a CAL - explica ao Correio seu projeto estético.
Qual é o espaço que a solidão protagoniza nessa sua nova ventura teatral? De que forma a condição solitária reflete o entorpecimento digital dos nossos tempos?
Jorge Caetano - "Apocalip-se" é uma comédia dramática musical, focada no isolamento de um homem no seu próprio apartamento após o período da pandemia. O ponto central da narrativa é a relação densa e claustrofóbica que ele desenvolve com uma inteligência artificial. No centro do palco, a IA ganha uma dimensão física e agigantada. Ela é o eixo do mundo em cena, o lugar onde o personagem vive, dorme e questiona sua vida e o mundo. A IA é a representação da nossa solidão. O protagonista conversa com uma máquina porque o ser humano se tornou complexo e assustador demais para ele lidar. Essa presença tecnológica ganha vida na figura de uma atriz, a Nina da Costa Reis, que dá voz e humanidade à máquina em momentos de contracena. O apartamento deixou de ser um refúgio e virou uma extensão da mente do personagem. A rua passou a ser vista como o território do perigo, do imprevisível. Além da IA, uma banda com três músicos pontua essa atmosfera. A música ao vivo traduz sonoramente o turbilhão interno do personagem.
O que seu personagem revela sobre a condição masculina?
Esse personagem revela a crise do homem solitário 60 , rodeado de remédios e suplementos, que questiona se vai conseguir amar novamente antes de o mundo acabar, que se descobre frágil, apavorado e incapaz de pedir ajuda de forma convencional. Esse sujeito é um homem comum que vive em um looping temporal obsessivo — simbolizado pelas horas iguais, como o 22:22 que ele vê constantemente no relógio —, preso em uma rotina onde a única válvula de escape é o rock visceral que ele canta. Foram criadas seis canções originais, compostas por mim em parceria com o músico Felipe Storino. A música é o elemento que quebra o naturalismo do isolamento, sua válvula de escape e traz a força telúrica para a cena. É onde o personagem explode e mostra o que restou de sua humanidade.
Como se dá a sua parceria com a Julia Spadaccini, autora de muitos de seus sucessos como ator na cena?
A parceria com a Julia Spadaccini, que dessa vez divide a dramaturgia com Márcia Brasil, é fruto de uma profunda sintonia artística e intelectual sobre as crises das relações humanas. contemporâneas. Nossa troca sempre passou por esse desejo de investigar o indivíduo comum diante de situações limite, sempre com humor, poesia e dessa vez com a música ao vivo. A minha parceria com Alexandre Mello, que assina comigo a direção, também foi de uma afinidade impressionante.
Hoje o que o teatro te oferece como espaço de criação e invenção?
O teatro hoje é o último reduto de resistência do "aqui e agora". Em uma era onde tudo é digital, efêmero e mediado por telas, o teatro oferece a emoção da presença física. É um espaço de invenção porque nos permite o improviso e nos deixa dilatar o tempo da reflexão. O palco é o lugar onde posso colocar o corpo inteiro em risco — a voz, o suor, a emoção bruta.
O que você tem de filmes com Patrícia Niedermeier e Cavi Borges pela frente?
Essa parceria cinematográfica gerou obras viscerais no cinema independente, marcadas pela investigação e liberdade criativa. Fui coautor do roteiro de dois dos quatro longas que fizemos juntos: "Reviver" (2018), "Fado Tropical" (2019), "Não Sei Quantas Almas Tenho" (2023) e o inédito "Andrômeda".