Um astro entre a fama e o abismo
Com atuação reluzente de Gustavo Gasparani, monólogo sobre a trágica jornada de Montgomery Clift ganha nova temporada carioca
O palco do Teatro Laura Alvim, em Ipanema, recebe a partir do dia 3 de julho a reestreia de "Como Posso Não Ser Montgomery Clift?", monólogo que mergulha na vida e nos abismos de um dos maiores ícones de Hollywood. Em cena, o multitalentoso Gustavo Gasparani dá corpo a Montgomery Clift (1920-1966), o galã de olhar dilacerado que desafiou Hollywood não apenas com sua atuação, mas com uma existência marcada pelo conflito entre a persona pública e aquilo que era obrigado a esconder.
O texto é do dramaturgo espanhol Alberto Conejero López, vencedor do Prêmio Nacional de Literatura Dramática (2019) por "A Geometria do Trigo" e do prêmio Leopoldo Alas Mínguez de Literatura Dramática (2015) por "Cliff Precipício", obra que deu origem ao monólogo. A tradução é de Fernando Yamamoto, e a direção, de Fernando Philbert.
A montagem insere o espectador no apartamento de Montgomery Clift no momento em que, exausto do assédio da indústria cinematográfica, o ator decide abandonar o cinema para voltar ao teatro e realizar o sonho de montar "A Gaivota", de Tchekhov. A trama se desenrola num cenário concebido por Natália Lana, que instala uma grande banheira sobre o palco — objeto que evoca ao mesmo tempo um túmulo e um útero. Refletores em tripés espalhados pela cena sugerem a exposição permanente a que Clift estava submetido; garrafas vazias, objetos e roupas espalhadas completam o ambiente de desalinho. O figurino de Marieta Spada veste o ator com um smoking já desfeito, como quem acabou de passar a noite em claro. A iluminação de Vilmar Olos costura a passagem entre os estados lúcidos e alucinados do personagem.
Montgomery Clift foi um dos rostos mais fotografados de sua geração. Indicado ao Oscar por "Só Resta a Esperança" (1948), "Um Lugar ao Sol" (1951) e "A Um Passo da Eternidade" (1953), ele revolucionou a atuação cinematográfica ao trazer para a tela uma vulnerabilidade que o cinema estadunidense até então reservava às suas atrizes.
Sua vida, porém, foi marcada por um divisor de águas trágico: em maio de 1956, depois de uma festa na casa de Elizabeth Taylor, ele bateu o carro contra um poste e teve o rosto desfigurado. As cirurgias reconstrutivas devolveram parcialmente sua aparência, mas o lado esquerdo do rosto permaneceu parcialmente paralisado — e Clift passou a atuar de perfil para a câmera. O acidente, somado à pressão de viver a homossexualidade às escondidas numa Hollywood que a criminalizava, levou-o ao álcool e aos barbitúricos. Morreu aos 45 anos, em 1966.
A dramaturgia de Conejero López desnuda a subjetividade de um homem que tenta resgatar do naufrágio da própria existência o que lhe restou de mais preciso: o ofício de ator. "Se a dificuldade em lidar com a voracidade da fama, e com a própria sexualidade, criou um ambiente nocivo e tóxico em relação à profissão levando o personagem ao abismo, é a paixão por essa mesma profissão que o faz emergir de suas profundezas e continuar", afirma Gasparani. "Quantos homossexuais vivem esse paradoxo? Quantos se escondem para vencer na profissão?", reflete o ator com mais de 70 espetáculos no currículo e fundador da Cia dos Atores.
O espetáculo foi indicado ao Prêmio APTR nas categorias de Melhor Ator (Gasparani), Melhor Cenografia (Natália Lana) e Melhor Iluminação (Vilmar Olos), tendo vencido nesta última. A crítica recebeu a montagem com entusiasmo: Tania Brandão destacou que Gasparani "dá corpo a esta crise contemporânea violenta, a crise gerada pela fama, com uma grandeza humana admirável"; Lionel Fisher agradeceu "o privilégio de ter assistido a mais uma ótima performance deste ator de exceção". José Cetra, crítico e jurado do Prêmio APCA, definiu a peça como "imperdível para quem ama o cinema e o teatro".
Gustavo Gasparani, que em 2026 também assina a autoria e direção de "Fafá de Belém, O Musical" (em cartaz em São Paulo) e "Espelho Mágico, O Musical" (no Rio), acumula ao longo de mais de quatro décadas de carreira 15 prêmios e 24 indicações nos principais certames das artes cênicas brasileiras — APCA, Shell, APTR, Cesgranrio, Reverência e Bibi Ferreira, entre outros. Sua trajetória inclui a fundação da Cia dos Atores, uma das companhias teatrais mais relevantes do país, e a publicação de três livros.
SERVIÇO
COMO NÃO POSO SER MONTGOMERY CLIFT?
Teatro Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176, Ipanema)
De 3 a 26/7, sextas e sábados (20h) e domingos (19h)
R$ 60 e R$ 30 (meia)