Autópsia do luto
Odrama é sobre a incapacidade do ser humano em lidar com a dor, o veneno que abastece e entorpece as nossas vísceras, a partir das tragédias, pelas quais, por vezes, somos condenados a permanecer na catastroficidade do ser. O texto psicológico da holandesa Lot Vekemans reflete as agruras de um ex-casal ao perderem o filho e a angústia no luto. A tradução de Mariângela Guimarães universaliza a obra.
A narrativa, tocante, parte do reencontro desses pais atravessados por um infortúnio e que tiveram seu casamento destroçado desde então, num dia chuvoso, na sala de espera do cemitério, onde o filho permanece enterrado há dez anos, ao receberem um aviso burocrático informando que o solo havia sido contaminado e devem remover os restos mortais. A notícia aciona dores e arquiteta um embate, revelando como cada um deles relaciona-se com a tortura. O tempo pode funcionar como remédio para anestesiar a aflição, mas Ela conserva-se na melancolia, enquanto Ele escamoteia seu padecimento com benevolência, estabelecendo um viés altruísta ao depara-se com sua ex-mulher. A surpresa que a autora reserva-nos é a prova de que estamos diante de uma escrita da melhor qualidade.
Há uma estética minimalista que corrobora para que a encenação não desague no melodrama, já que o material dramatúrgico é demasiadamente intenso, além de afastar-se de um pensamento reducionista, apresentando duas ideias opostas absolutamente humanas. A direção, coletiva, opta por um palco quase nu, com mesa, cadeiras e um bebedouro, em que a água parece aliviar o ressecamento daquelas almas e corpos desnorteados. O refinamento encontra-se no que não está dito, nos silêncios abomináveis repletos de subtextos tencionados, pelos quais a audiência perturba-se. É o que podemos denominar como "Teatro de Câmara", com sutilezas sustentando a profundidade da montagem, que investe no trabalho dos atores.
O elenco aproveita o máximo do material que lhes foi concedido. Como um bálsamo para nossos olhos e ouvidos, o casal constrói suas personagens com extrema veracidade, instituindo pausas que são verdadeiras pontes de emoção. Tudo foi devidamente ponderado para que pudessem evidenciar simplicidade, embora estejam teatralmente estofados. Falas acavaladas, palavras que sobrepõem-se como regurgitações agonizantes expressam o talento de Alexandre Galindo e Cléo de Páris, amalgamando-se em cicatrizes incuráveis. Uma dinâmica interior luminosa é estabelecida quando contracenam, em cenas fartas de variações. O destempero dos dois, nos momentos certos, é conveniente e primoroso.
O figurino, de Fabiano Menna, investe na mesma paleta unindo o casal, enquanto a iluminação, coletiva, silhueta o esqueleto, com lâmpadas frias tubulares, auxiliando a dureza do enredo.
Como elaborou Heidegger, o fato de que estamos voltados para o próprio abismo e finitude é, em essência, uma percepção da catástrofe iminente.
SERVIÇO
VENENO
Teatro CCBB (Rua Primeiro de Março, 66), de quarta a sábado e segundas (19h) e domingos (18h).
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)