Ocupa Boal

Mostra reúne a peça inédita no Rio "Hamlet 16x8", exposição audiovisual, oficinas e debates sobre o criador do Teatro do Oprimido no Espaço Cultural Sérgio Porto até 19 de julho

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Augusto Boal dirigindo 'La Malasangre', em Nuremberg (Alemanha), em 1984

Entre os dias 26 de junho e 19 de julho o Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá, sedia a mostra "Ocupa Boal" — uma ocupação dedicada à trajetória multifacetada de Augusto Boal (1931-2009), dramaturgo, diretor e criador do Teatro do Oprimido. Idealizada pelo Instituto Augusto Boal, a programação inclui o espetáculo inédito no Rio "Hamlet 16x8", uma exposição audiovisual com curadoria de Cecília Boal e Daniela Camargo, além de oficinas e bate-papos.

À frente do instituto, Cecília Boal — psicanalista e atriz, companheira de vida e parceira artística de Boal por seis décadas — dedica-se à preservação e difusão do legado do teatrólogo. Para ela, revisitar essa trajetória é também olhar para o Teatro de Arena como movimento cultural e político. "Existia ali uma proposta política para o Brasil muito definida, e a ditadura fez o possível para que houvesse um apagamento dessa experiência", afirma. A mostra propõe justamente recolocar essa história em circulação, aproximando o público de diferentes dimensões da obra do dramaturgo.

O ponto alto da programação é a estreia carioca de "Hamlet 16x8", solo com Rogério Bandeira e direção de Marco Antonio Rodrigues. O espetáculo parte do livro "Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas", autobiografia em que Boal revisita a infância, o Teatro de Arena, a prisão, o exílio e a trajetória internacional. A encenação, construída por Rodrigues e Bandeira, peneira os achados, os ditos e os quereres de Boal, representando toda uma geração do teatro brasileiro refundada no Teatro de Arena. A peça estreou em São Paulo em 2021 e foi indicada na categoria Melhor Espetáculo do Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

Pio Figueiroa/Divulgação - Hamlet 8X16

Além do espetáculo, a exposição audiovisual "Augusto Boal", com curadoria de Cecília Boal e Daniela Camargo, reúne cartazes, fotografias e registros históricos de montagens dirigidas por Boal no Brasil e no exterior, além de trechos de entrevistas e depoimentos em vídeo do dramaturgo, de amigos e de artistas que fizeram parte de sua trajetória. A mostra evidencia o papel fundamental de Boal como divulgador da dramaturgia ibero-latino-americana.

A ocupação também destaca a importância do Teatro de Arena, grupo fundamental da cena brasileira a partir dos anos 1950. Sob direção de Boal, o Arena consolidou uma dramaturgia voltada à realidade social brasileira e revelou autores, atores e encenadores que marcariam a história do teatro nacional. O grupo circulou por países como Estados Unidos, México, Peru e Argentina, tornando-se referência artística e política na América Latina e no mundo.

A programação inclui ainda duas oficinas. A primeira, "Teatro Jornal: um arsenal do Teatro do Oprimido", ministrada por Pedro Barroso, combina jogos do Teatro do Oprimido com a criação de cenas a partir de notícias atuais, e contará com a presença especial do ator Celso Frateschi — figura histórica que participou do grupo com o qual Boal desenvolveu sua primeira peça de Teatro Jornal, e que atualmente dirige o Ágora Teatro, em São Paulo. A segunda, "Augusto Boal e o Teatro do Oprimido", com Lucas Tostes e Thaís Paiva, propõe uma imersão teórico-prática na trajetória de Boal e no desenvolvimento do método, abordando seu contexto histórico, político e cultural, com realização de jogos e técnicas que articulam a prática teatral à conjuntura atual e às questões vividas pelos participantes em seus contextos sociais.

A realização da "Ocupa Boal" em 2026 ganha camadas extras de sentido. O país completa 42 anos do fim da ditadura civil-militar, contexto que moldou boa parte da trajetória do dramaturgo — preso, torturado e exilado entre 1971 e 1979, Boal transformou a adversidade em motor criativo, desenvolvendo justamente no exílio as primeiras técnicas do Teatro do Oprimido, método que levaria seu nome aos cinco continentes e o tornaria candidato ao Prêmio Nobel da Paz em 2008.

Recolocar essa experiência em circulação num equipamento cultural municipal do Rio de Janeiro — sua cidade natal — é também um ato de resistência à lógica do apagamento que Cecília Boal menciona. Para além da homenagem, a mostra apresenta às novas gerações a potência de um teatro que não separa estética de ética, cena de consciência social.

SERVIÇO

OCUPA BOAL

Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto (Rua Visconde Silva, s/nº - Humaitá).

De 26/6 a 19/7.

HAMLET 16x8: Sextas e sábados (19h30) e domingos (18h). R$ 40 e R$ 20 (meia).

EXPOSIÇÃO AUGUSTO BOAL

Abertura em 26/6, às 18h, com visita mediada por Cecília Boal às 18h30. De quarta a domingo, das 16h às 21h. Grátis

OFICINA TEATRO JORNAL

27 e 28/6 (sáb e dom), 15h às 19h. R$ 100. Inscrições: Sympla.

OFICINA AUGUSTO BOAL E O TEATRO DO OPRIMIDO - 18 e 19/7 (sáb e dom), 15h às 19h. R$ 100. Inscrições: Sympla.

CONVERSAS

Celso Frateschi: 27/6 (sáb), 17h, no Palco Principal. Geo Britto: 12/7 (dom), 15h30. Ambas gratuitas, com distribuição de senhas uma hora antes.