Angústia metafísica
Num ideário do ator Vinicius Teixeira, que divide a dramaturgia com o diretor Jefferson Almeida, "Selva: Solidão" recebe influências de Artaud e seu teatro da Crueldade, buscando uma subjetividade potente, na qual o teatro abre mão da digestão fácil. Há uma imersão no vazio existencial, onde o texto expõe, com criatividade, como a solidão LGBTQIAPN comporta-se diante dos efeitos desoladores a reboque de uma sociedade heteronormativa. Antônio, Jonathan e Luiz Felipe são homens gays aturdidos no desespero de amarem ou serem amados. E na selva, cada vez mais solitária que vivemos, procuram em seus parceiros detectar suas próprias identidades.
A narrativa estrutura rupturas, nas quais as personagens vão conglomerando-se, configurando uma carpintaria sólida. O texto é tão violento quanto divertido, desmistificando uma realidade nua e crua. As personagens relacionam-se na velocidade do tempo acelerado que o dia a dia obriga-nos, revelando a inevitabilidade da dor.
A vigorosa e perspicaz direção de Jefferson Almeida adiciona elementos que corroboram para que o espetáculo triunfe em teatralidade. Conduzir monólogo é incumbência perigosa, mas tudo flui poderosamente e por vezes não identificamos o que vem do processo de encenação ou do ator ou da fusão tocante de ambos. O palco é persuadido por ações, ideias, pensamentos, silêncios, que preenchem a sensorialidade da plateia. Marcas inventivas, fabricando angústia e riso, muitas vezes patético. A cena que uma das personagens padece e sorri quase que ao mesmo tempo é primorosa, além da cena de sexo. A escuridão, que habita na gente, ao final, é emocionante. Tudo faz absoluto sentido.
Cada segundo é dominado pelo talento de Vinicius, efetivando uma montagem instigante. O ator brilha no atendente Jonathan, no garoto de programa Luiz Felipe e no aposentado Antônio, numa corporeidade e psicomotricidade impressionantes. Valoriza o texto com sensibilidade, institui cortes abruptos que desvelam o destempero daqueles seres à beira de um ataque de nervos, infundidos pelo desamparo inerente. Todas as mutações são ligeiras e precisas, onde vozes e estados emocionais são bem desenhados, com ótimo apoio da preparação de Daniel Chagas. Ao desnudar-se o intérprete mistura as personagens com destreza, outo acerto da direção. Estabelece humor nos momentos certos, além de cantarolar "Summertime" harmoniosamente.
A iluminação de Livs cria uma ambiência fascinante, em perfeita sintonia dramatúrgica, cenografando a cena, sem utilizar o equipamento aéreo da caixa cênica, espalhando refletores em tripés e torres com ribaltas de led, que auxiliam a atmosfera determinada pela direção e pela exuberante direção musical e trilha original de Rafael Lorga.
É poético o encontro entre um encenador e um ator, que conseguem comungar a mesma disposição criativa, designando um espetáculo repleto de beleza e nuances.
SERVIÇO
SELVA: SOLIDÃO
Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde, s/nº) | Até 26/6, quintas e sextas (20h) | R$ 30 e R$ 15 (meia)