Em vidas cruzadas

Monólogo de Jefferson Almeida e Vinícius Teixeira, 'Selva: Solidão' reflete sobre vivências LGBTQIAPN

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Vinícius Teixeira, que acaba de encerrar sua participação na novela "Três Graças" como o personagem Vandilson, retorna aos palcos do Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, com "Selva: solidão", monólogo escrito por Jefferson Almeida e pelo próprio ator.

Neste solo Teixeira dá vida a três personagens: Jonathan, um atendente de fast food; Luiz Felipe, um garoto de programa; e Antônio, um professor universitário aposentado. As trajetórias desses três homens gays se cruzam na narrativa, servindo como ponto de partida para reflexões sobre os efeitos de crescer como pessoa LGBTQIAPN em um mundo heteronormativo. A peça se propõe a aprofundar questões complexas da comunidade — solidão, etarismo, relação com o corpo, ansiedade, depressão e abandono.

Teixeira enfatiza a importância de dramaturgias originais criadas por pessoas LGBTQIAPN ocuparem os palcos brasileiros. "Sinto que é de extrema importância colocar dramaturgias originais escritas e pensadas por pessoas LGBTQIAPN nos teatros, nos palcos, nos livros, enfim, em toda a parte!", afirmou em entrevista. O ator ressaltou que o Brasil segue como país com maior número de assassinatos de pessoas LGBTQ há 14 anos consecutivos, o que torna projetos como "Selva: solidão" ainda mais necessários. "Sinto que estamos num momento, inclusive, em que as questões da nossa comunidade podem e precisam ser aprofundadas nesses projetos e discursos", complementou.

Segundo Teixeira, existe uma dificuldade significativa em viabilizar produções com essas temáticas. "Percebo muita dificuldade de viabilizar esse tipo de projeto, visto que muitas empresas não quererem se associar a projetos que tratem de questões relacionadas a comunidade LGBTQIAPN ", explicou. Por isso, o ator defende que a própria comunidade ocupe os teatros e divulgue essas produções. "Por isso também costumo sempre dizer que é de extrema importância que as pessoas da comunidade ocupem os teatros, divulguem essas produções e contribuam para que elas continuem existindo", afirmou. Teixeira acredita que essa participação é essencial para criar "um novo imaginário coletivo e uma comunidade com práticas mais saudáveis e acolhedoras".

O retorno aos palcos acontece em um momento de expansão na carreira do ator. Após passar por linguagens distintas — teatro, cinema e televisão — Teixeira vê em "Selva: solidão" uma oportunidade de demonstrar versatilidade. "Estou muito animado em trazer mais essa temporada aos palcos. A novela me proporcionou novos aprendizados e expandiu minhas ferramentas. Com essa nova experiência na bagagem, acho que coisas novas podem surgir nas minúcias da minha interpretação na peça", comentou.

O personagem Vandilson em "Três Graças" tinha uma personalidade radicalmente diferente dos três que interpreta na peça. "Uma das coisas que mais tem me empolgado nesse retorno da peça pós-novela é justamente isso. Meu personagem em 'Três Graças' tinha uma personalidade totalmente diferente das dos três que interpreto na peça. É muito interessante ter a possibilidade de mostrar essa versatilidade e esse outro lado do meu trabalho", comemora.

Teixeira também mencionou que a visibilidade conquistada na novela das 21h pode atrair novo público para o teatro. "Além disso, o horário nobre da televisão é muito visto, isso expande muito a visibilidade do meu trabalho. Sou muito feliz fazendo essa peça, e acredito muito que a temática dela tem uma grande importância. Fico empolgado de pensar que, depois da novela, mais pessoas possam assistir e ter acesso às questões e reflexões que a peça levanta", disse. O ator expressou satisfação em conseguir seguir atuando em múltiplas linguagens em um país que desvaloriza a cultura. "Num país que desvaloriza tanto a cultura e com um mercado tão precarizado, fico feliz de conseguir seguir atuando e passeando por muitas linguagens diferentes", comentou.

Após a temporada de "Selva: solidão", Teixeira segue com outros projetos. O ator estará na montagem de "Beijo no asfalto", de Nelson Rodrigues, ao lado de Eduardo Sterblich, Luísa Arraes, Ernani Moraes e André Mattos. Além disso, aguarda o lançamento de "Corpo Clandestino", filme produzido pela Caboré em que interpreta o antagonista Augusto. Também está na pós-produção de "Sangre", filme em parceria com o diretor Caio Scot, com previsão de participação em festivais.

SERVIÇO

SELVA: SOLIDÃO

Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde, s/nº)

De 4 a 26/6, quintas e sextas (20h) | Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)