A proeminência de Paulo Gustavo
Há cinco anos o ator Paulo Gustavo partiu e outorgou um legado indescritível, que converte-se no musical esmerado "Meu Filho É Um Musical", numa idealização de sua mãe, dona Déa Lúcia, sua irmã Ju Amaral e a produtora Renata Borges. O palco descortina-se e a audiência é comovida por "Fascinação", eternizada por Elis Regina, nas vozes da progenitora real e da fictícia vivida pela ótima Stella Maria Rodrigues, compartilhando o desenho maternal que lhe foi atribuído com brilhantismo. Desde a infância e a juventude clubber em Niterói, o texto de Fil Braz e colaboração de Beatriz Coelho, revela o surgimento de um artista e de uma estrela aclamada por todo o país.
A vida sem perspectiva na cidade sorriso - já em comunhão ao humor do artista, os dissabores pelos quais a mãe enfrentava para criar seus dois filhos, a luta e perseverança de uma família unida, transformando o intérprete de sua própria procriadora em sucesso. Ao assistir a fábula infantil "O Gato de Botas", influenciando-o ainda menino, a personagem central percorre toda a encenação em apuro técnico de Fabrício Negri. Os embates pelo preconceito, os primeiros testes, a sagacidade de transmutar sua história em arte. O encontro auspicioso com o cinema e a televisão, que difundiu o talento nato de um dos nossos maiores comediantes.
Uma valorização da teatralidade está imposta na condução de João Fonseca e Ju Amaral, já que habitava no próprio homenageado um estado teatral. A dupla equilibra todas as funções do espetáculo de bom gosto. Extrai o melhor do elenco, sustentando com galhardia a difícil tarefa de guiar o jovem ator João Pedro Chaseliov - que divide a personagem com Pierre Baitelli - na composição do ícone brasileiro. Somos abarcados pelo riso e pela tragédia com sabedoria, sem permitirem que as pontas desamarrem-se e que todo o tempo não mantenha-se preenchido genuinamente.
Paulo Gustavo é recriado na pele de João Pedro Chaseliov, que trafega sem tropeços na construção psicofísica da impersonação. O ator brilha do início ao fim sem perder o timing, estabelecendo impressionante conexão com o todo. É seguro e o dueto com Stella Maria Rodrigues ao final é emocionante, aliás, a atriz experiente canta e encanta poderosamente. Castorine é outro ponto alto da montagem, domina com perfeição seu lado humorístico, constrói com sensibilidade o amor incomensurável que Juliana mantinha pelo o irmão, além de possuir um timbre abençoado, que ressoa como uma cotovia. A cena em que canta ao lado de Guilherme Baleixo, em ótima performance, evocando o passado é suco de afeto. Marcelo Varzea arquiteta seu Júlio com sapiência. A Iesa de Josie Antello é marcante, tamanho o talento da atriz. Cris Pompeio e Valéria Barcellos destacam-se em todos os seus respectivos papéis. Nina Vargens já demonstra aptidão para o palco. E Lucas Colombo - afinadíssimo, Talita Castro, Pedro Madeira, Gaspar, Thiago Voltolini, Luiza Lewicki, Oscar Fabião, Fernanda Sabot, Elizandra Souza, Bella Moraes, Miguel Venerabile, Ivana Tkotz e Gabriel Gentil completam o elenco.
Nello Marrese transporta a Grécia, edificando pilastras e paredão de mármore, num panteão de arquétipos, com máscaras do teatro, numa acertada alusão à tragédia e comédia, pelas quais configurou-se a passagem do ator pela vida. A escadaria transporta-nos para uma espécie de Olimpo pop, numa ideia de que Paulo ergueu-se aos céus ou metamorfoseou-se na Beyoncé que tanto idolatrava. Theodoro Cochrane cria uma indumentária grega para o coro, fortalecendo uma leveza cênica, colore todo o seu figurino inventivo, com destaque para o branco e diáfano final. O visagismo de Anderson Bueno é pitoresco. Dani Sanches oscila entre contrastes, onde a dor e a felicidade transitam concomitantemente. O corte seco de um blackout que pressente a morte é a metáfora exata de quem sabe iluminar para teatro. Tony Lucchesi assina arranjos delicados, repleto de modulações emocionais, evidenciando o talento vocal do elenco, além de articular uma direção musical que dialoga com a narrativa, enriquecendo o viés pilhérico e pungente da encenação. As coreografias e direção de movimento de Alonso Barros são precisas, reforçando a comicidade intrínseca da história.
Paulo Gustavo com seu humor afiado e peculiar perpetuou a gargalhada numa nação. Nem mesmo uma pandemia e os ignorantes para dizimarem o talento avassalador de um artista inigualável. Corram ao teatro para emocionarem-se!
SERVIÇO
MEU FILHO É UM MUSICAL
Teatro Multiplan (VillageMall - Av. das Américas, 3900 - Piso SS13
Até 19/7, de quarta a sexta (20h), sabádos e domingos (16h e 20h)
Ingressos entre R$ 25 e R$ 360