Aprisionamento virtual
Inspirado no teatro do absurdo, que emergiu na Europa em metade do século passado, "Pessoa Física" ressalta a falta de sentido e a forma pela qual estamos condenados à incomunicabilidade. Diálogos fragmentados, repetições, desestruturam o enredo aristotélico, acirrando a insensatez da vida contemporânea. Cecilia Ripoll engendra ótima dramaturgia, distanciando-nos do realismo, proporcionando aos realizadores uma viagem criativa.
Alguns homens tentam, desesperadamente, cadastrarem-se num ambiente tecnológico para acessarem uma conferência. E desde então desenrola-se um embate entre eles e a máquina, que atende às suas indagações, mas não soluciona seus impasses. A autora aproxima-nos da sua escrita, com perspicácia, na medida que expõe situações corriqueiras, tragicômicas, onde caminhamos para uma automatização generalizada. Há um desejo que o indivíduo mantenha-se como ser humano, mas um sistema obriga-nos à digitalidade, afastando-nos de uma existencialidade. Um jogo habilidoso de palavras propõe uma reflexão de como o universo informatizado deveria beneficiar a comunicação, mas acaba por complicar nossas relações e afazeres inúmeras vezes. O fato da máquina ganhar vida, confundir-nos e atrapalhar-se neste contexto é um deleite.
Marcela Andrade edifica com teatralidade à oferta de Ripoll, como deve ser quando uma direção talentosa passa a constituir uma autoria na montagem. Institui ritmo, equilibra seus intérpretes, além de armar desenhos que embelezam e justificam à escrita cênica. A cena em que mantém o ator aprisionado pelas placas, como se estivesse engolido pela tecnologia é muita adequada.
Em comunhão, Pablo Aguilar, idealizador do projeto, e Letícia Guimarães, percorrem toda a encenação com entendimento e lucidez do material que lhes foi concedido. O ator é ligeiro em determinadas circunstâncias, apresentando porções de humor ácido. Na cena inicial que exaspera-se pela confusão de ter o mesmo nome de seu pai é um acerto, conduzindo-nos àquela angústia patética, aliás, outro ponto alto para o texto de Ripoll. A atriz, ao dar vida à máquina, desenha uma corporalidade apropriada, colore com sapiência uma personagem que poderia permanecer engessada, costurando graça, carisma e inteligência. A intérprete ainda cantarola, afinada, "Solamente una vez", numa direção musical de Marcelo H, que manifesta elegância à montagem.
Estruturas como placas que remetem ao computador compõem a cenografia atraente de Carla Ferraz, Marcela Andrade e Pablo Aguilar. O figurino de Carla Ferraz denota uma distopia, reforçando uma ideia de repetição dos meios virtuais, como o da atriz que transmove-nos para um código de barra. Entretando, a iluminação de Livs não acompanha o padrão de artisticidade das outras funções.
"Pessoa Física" coloca-nos fadados a processos de validação, em que todos devem cadastrar-se numa organização disruptiva, através da qual somos impelidos a robotizarmos.
SERVIÇO
PESSOA FÍSICA
Sala Multiuso do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)
Até 31/5, quintas e sextas-feiras (19h) e sábados e domingos (18h)
Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia) e R$ 10 (sócio Sesc)