'Pessoa Física' transforma a burocracia digital em teatro do absurdo no Sesc Copacabana
Com humor e incômodo, a peça discute identidade, sistemas automatizados e a dificuldade de existir na era dos cadastros
Todo mundo já passou por essa situação típica de um Ionesco ou Pirandello. Aquela em que tenta resolver um problema pelo atendimento automático e acaba em um loop infinito de opções que não levam a nada, ou quando precisa de um documento para conseguir outro documento. Essa situações absurdas do nosso cotidiano no sécfulo 21 ganham forma cênica em "Pessoa Física", em cartaz no Sesc Copacabana, coloca em cena o embate entre a insistência humana em existir como indivíduo e uma estrutura que só reconhece o que está padronizado nos seus sistemas. É uma investigação bem-humorada, mas incômoda, sobre os limites entre existência e validação tecnológica.
O texto é de Cecilia Ripoll, dramaturga formada em Artes Cênicas pela Uni-Rio que recebeu indicação ao Prêmio Shell RJ 2023 pelo texto "Pança" e já conquistou o Prêmio Jovens Dramaturgos do Sesc e o Fenata de Melhor Dramaturgia. A direção é de Marcela Andrade. Em cena, apenas dois atores: Pablo Aguilar interpreta uma sequência de homens que esbarram repetidamente em falhas do sistema, enquanto Letícia Guimarães dá voz ao atendimento automatizado — aquele que responde, mas nunca resolve. A dinâmica entre eles sustenta toda a peça, movida pela cumplicidade e pela inteligência cênica de uma dupla que transforma frustração em riso.
A situação inicial é simples: um homem tenta completar um cadastro online. Daí em diante, a peça expõe o paradoxo central dessa realidade: "para se cadastrar, é preciso ser alguém; para ser alguém, é preciso se cadastrar". Cecilia Ripoll explora o absurdo das burocracias que atravessamos para viver — exemplos que qualquer um reconhece imediatamente. A dramaturga cita o clássico dilema: precisar de um telefone para reclamar que está sem telefone. São situações que parecem saídas de um sketch, mas que revelam uma verdade perturbadora sobre como os sistemas automatizados definem quem somos.
Aguilar, que também idealizou o projeto, "o espetáculo aponta que o conflito real se dá entre o humano que insiste em existir como indivíduo e uma estrutura que reconhece apenas o que é padronizado". Para ele, a pergunta existencial "o que define que eu sou eu?" deixou de ser apenas filosófica — agora envolve nossos registros digitais, nossos cadastros, nossas pegadas em sistemas que não conhecemos e não controlamos. É uma questão que toca a cidadania, a identidade e a memória de quem vive mediado por tecnologia.
A encenação de Marcela Andrade organiza esse embate em uma dinâmica contínua de desencontros. A diretora descreve "Pessoa Física" como uma peça capaz de conquistar públicos diversos ao misturar identificação com situações corriqueiras — falhas de login, atendimentos irresolvidos, a frustração de quem tenta existir dentro de uma máquina — com desvios de expectativas óbvias. Há humor, há absurdo, há incômodo. As referências que informam a obra são explícitas: o Teatro do Absurdo, a distopia de "1984" de Orwell, o filme "Her" de Spike Jonze. Ao exagerar essas situações cotidianas, a peça provoca uma pergunta que fica no ar: será que ainda sabemos existir fora dessa mediação digital?
Em 60 minutos, a dupla em cena oferece uma resposta em forma de incômodo bem-humorado — aquele que faz rir e, ao mesmo tempo, questionar. A peça não oferece soluções, mas coloca o dedo na ferida de quem vive preso entre a necessidade de se validar digitalmente e a vontade de simplesmente existir. É teatro que fala de agora, que toca o público onde dói, e que usa o riso como ferramenta para pensar.
SERVIÇO
PESSOA FÍSICA
Sala Multiuso do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)
Até 31/5, quintas e sextas-feiras (19h) e sábados e domingos (18h)
Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia) e R$ 10 (sócio Sesc)