'Alumbramentos' transforma desastre ambiental em teatro inclusivo no CCBB Rio
Espetáculo do Grupo Moitará une máscara teatral, Libras, Visual Vernacular e arte visual em uma reflexão poética sobre memória, território e natureza
Quando uma fábrica chega a um vilarejo ribeirinho, ela não apenas transforma a paisagem. Corrói identidades, silencia vozes, reduz um modo de existência a escombros. É essa memória estilhaçada que o espetáculo "Alumbramentos", dirigido por Erika Rettl, resgata a partir de fragmentos — restos de sonhos, gestos e histórias de uma comunidade atravessada por desastre ambiental. A peça, que converge arte, consciência ambiental e inclusão. está em cartaz no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro, acompanhada de exposição de pinturas do artista visual Rafael Prado.
O trabalho é assinado pelo Grupo Teatral Moitará, fundado há 33 anos por Erika Rettl e Venício Fonseca, que se consolidou como referência na pesquisa da linguagem da máscara teatral no Brasil. Desta vez, a dramaturgia de Fidelys Fraga e Clara Anido — construída de forma colaborativa com a diretora e os atores — parte de inspiração livre no texto Alumbramentos, da escritora Nathercia Lacerda, para propor uma reflexão poética sobre a relação entre seres humanos e natureza. A estrutura é deliberadamente fragmentada e não-linear: surgem pistas de como o crescimento industrial corrói a identidade local, enquanto personagens como Alfandegário, funcionário disposto a tudo para ascender, entram em confronto com João, curandeiro que tenta preservar os laços comunitários.
A encenação mistura diferentes tempos e cria uma cronologia que se dobra sobre si mesma, evocando saberes das culturas tradicionais e os efeitos da exploração ambiental. Os atores Joyce Araújo e Gustavo Vieira — ambos integrantes do Núcleo de Pesquisa da Linguagem da Máscara Teatral do Grupo Moitará — contracenam com dois intérpretes, Ricardo Boaretto e Jhonatas Narciso, um surdo e outro ouvinte. Juntos, eles utilizam tanto a Libras quanto o Visual Vernacular (VV), uma linguagem performática criada pela cultura surda. Boaretto e Narciso também atuaram como consultores durante a pesquisa dramatúrgica, assegurando que tanto o público surdo quanto ouvinte usufruem de um espetáculo profundamente imagético, onde a acessibilidade não é apêndice, mas parte integral da criação.
A relação entre Rettl e artistas surdos vem de longa data. Desde 2010, ela coordena o Ponto de Cultura Palavras Visíveis, programa bilíngue (Libras e português) que integra experiências teatrais entre surdos e ouvintes, capacitando artistas surdos e desenvolvendo o Visual Vernacular como linguagem artística. Esse trabalho contínuo de quase duas décadas reflete-se em Alumbramentos, onde a inclusão não é gesto de benevolência, mas resultado de pesquisa profunda e colaboração igualitária. A equipe técnica inclui Caio Padilha na direção musical, Carlos Alberto Nunes em cenografia e figurino, e Djalma Amaral na criação de luz. A temporada prevê ainda uma roda de conversa gratuita intitulada "O visível e o invisível da construção dramatúrgica" no sábado (30 de maio), após a sessão, com intérpretes de Libras.
A proposta se completa com a exposição de Rafael Prado, pintor natural de Rondônia que desenvolve sua obra a partir de referências do território amazônico e das encantarias regionais. Quatro telas em óleo — três de grande formato e uma menor — ocupam o corredor de acesso ao teatro. Nelas, corpos se enfrentam e ocupam o mesmo espaço: uma mulher-felino com rosto humano, o encontro entre um felino e uma sucuri sob lua amarela, detalhes de olhares animais em meio à vegetação. Prado trabalha a relação direta entre humano, animal e paisagem como parte de um mesmo corpo. Uma de suas obras foi a base do cartaz e das artes do espetáculo. O conjunto dialoga com o universo da peça ao tratar da cosmologia que atravessa a narrativa — essas imagens colocam em circulação presenças que abrem um campo de percepção acompanhando o espectador até a sala.
SERVIÇO
ALUMBRAMENTOS
Teatro III - CCBB RJ (Rua Primeiro de Março, 66, Centro)
Até 31/5, sextas e sábados (19h) e domingos (18h30)
Ingressos: sextas e sábados: R$ 30 e R$ 15 (meia) | domingos: ingresso solidário em troca de 1kg de alimento não perecível (exclusivamente bilheteria física, a partir das 9h)
Atividades complementares (gratuitas):
— Exposição "Alumbramentos" de Rafael Prado (hall de entrada, durante toda a temporada)
— Roda de conversa "O visível e o invisível da construção dramatúrgica" (30 de maio, após a sessão)