Dinâmica da morte
Descortinando a cena, o clima de tensão já é instaurado pela trilha original oportuna de Adriano Sampaio - atravessando toda a encenação, e pelo vermelhidão da luz de Renato Machado, que desaba sobre corpos, auxiliando a ampliação do fluxo sanguíneo. Numa idealização de Renato Carrera e realização da Bruzun Company e Palavra Z Produções Culturais, o espetáculo que estreou em Lisboa na Mostra de Teatro Brasil no Chapitô em 2025, reúne duas obras de Nelson Rodrigues, que dispensa comentários, tamanha a vastidão de contos e crônicas, além das 17 peças que o gênio da dramaturgia nacional implementou.
A trama desagua questões sobre violência de gênero, traumas, maldades, depreciação, vingança, morte, onde tudo dialoga entre si, desvelando o quanto seres humanos tornam-se cruéis e macabros.
Renato Carrera edifica um espetáculo tenso em perfeita sintonia com a escrita rodrigueana, impondo um minimalismo estético, valorizando as matizes que o maior dramaturgo do país urdiu.
O diretor conduz com extrema habilidade as variações que suas atrizes possuem, inclusive a si mesmo. Opta por movimentação exígua e repleta de subtextos, pelos quais a doença humana pode alcançar estados de periculosidade, onde a morte agita-se e faz a audiência perder o fôlego. Mantém a originalidade dos contos, dramatizando com louvor as narrações. Toda a encenação é primorosa, mas a cereja do bolo fica pelo final aterrador, em que a gargalhada, teatralmente alongada, é sinônimo de horror, felicidade, revanche, tudo ao mesmo tempo.
O próprio encenador é o destaque do elenco, elaborando estranhezas que favorecem a proposta, numa embocadura que revela maldição. A angústia vivida por Lauro em "A Mão Esquerda" é muito bem desenhada por Carrera, na qual um suplício patético é filigranado. Já em "Vingança" o destempero do marido em que uiva a sua dor na indagação: "Qual?!!!", é a magnificência do ator. Andreza Bittencourt acerta em galgar vagarosamente as vicissitudes de sua personagem, emoldurando uma máscara tenebrosa ao final do primeiro conto. No segundo quadro, Dani Ornellas pigmenta na medida certa aquela mulher ultrajada, com requintes de emoção. Todos três abrilhantam-se em suas narrações.
O cenário de Daniel de Jesus é simples e funcional, onde um piso avermelhado remete-nos a sensação de que todos estão prestes a sangrar, além da ótima projeção do mesmo, em que um pêndulo e uma imagem de ultrassom dialogam precisamente com a elucubração direcional de Carrera. Dani Ornellas investe numa indumentária enlutando as personagens, adicionando uma ideia de que o desejo sobrepõe a racionalidade.
Há algum tempo Renato Carrera vem estreitando sua comunhão com Nelson Rodrigues. Atuou e dirigiu "Vestido de Noiva", fez "Senhora dos Afogados", trafegou por "A falecida" e "A Serpente". É bastante natural que o artista venha amadurecendo suas ferramentas para eclodir com firmeza e refinamento a montagem de "Diabólica Vingança".
SERVIÇO
DIABÓLICA VINGANÇA
Teatro Futuros — Arte e Tecnologia (Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo)
Até 24/5, de quinta a domingo (19h)
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)