Pressão, mídia e saúde mental entram em campo
Marcus Faustini volta à direção teatral em espetáculo que explora colapso psicológico de jogador em escândalo de apostas
Um jogador de futebol envolvido em um escândalo com apostas digitais convoca uma jornalista de guerra para uma entrevista que rapidamente se transforma em confronto. O encontro entre Vicente (Paulo Verlings) e Nara (Elisa Pinheiro) é o ponto de partida de "Assim na Terra Como no Céu", em cartaz até domingo (24) no Teatro Ipanema, com direção de Marcus Vinícius Faustini e texto inédito do antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares. A peça encerra temporada em 24 de maio, com 20 sessões gratuitas.
Faustini, que não dirigia para o palco há alguns anos, retorna com um espetáculo que usa o futebol como linguagem para explorar poder, exposição e o que acontece quando um sujeito vira personagem público. "Usar o futebol como linguagem para falar de poder, exposição, do que acontece com um sujeito quando ele vira personagem público — é aí que a dramaturgia pode entrar com força, não pra ilustrar o jogo, mas pra revelar o que o jogo esconde", explica o diretor em entrevista ao Correio.
A formação de Faustini com o futebol vem desde a infância. "Quando eu era moleque, colecionava cartas dos times do Campeonato Brasileiro. Nunca completava o álbum. Faltava dinheiro. Mas aprendia outra coisa: negociar, trocar, conversar. A rua era uma espécie de arquibancada permanente", relembra. Ele observa que o teatro brasileiro tem poucos dramaturgos que enfrentaram o futebol de verdade — e que hoje existe um debate global forte sobre esporte e saúde mental. "Isso abre uma chave nova: o futebol deixa de ser só espetáculo ou performance e passa a ser também campo de subjetividade, de pressão, de colapso, de reinvenção."
Na peça, Vicente está à beira do colapso pessoal e profissional. Nara, a jornalista, não é apenas quem revela a história — ela também está em risco, atravessada pelas mesmas pressões que caracterizam o jornalismo nos dias de hoje. Faustini aponta que os jornalistas hoje não estão só mediando a realidade. "Pressão das redes sociais, violência simbólica das fake news, ataques coordenados, interesses econômicos e políticos cada vez mais explícitos. Isso desloca o debate. Não dá mais para falar da mídia apenas como estrutura de poder, é preciso olhar para os sujeitos que operam essa máquina, sob tensão constante", destaca.
O processo criativo com Luiz Eduardo Soares começou com uma provocação: futebol, bets, jornalismo, inteligência artificial e saúde mental. Soares transformou esses elementos em conflito humano. "Luiz não escreve tese, escreve gente. O que mais me atrai nele é essa capacidade de olhar para estruturas de poder sem perder a dimensão ética e subjetiva dos personagens. Ele entende o Brasil em profundidade, mas escreve sem didatismo", destaca Faustini. A parceria entre os dois já havia produzido "Entrevista com Vândalo" (2014), peça sobre os protestos de 2013 que abordava o conflito entre um policial e um black bloc.
A peça não é sobre o escândalo de apostas — é sobre o que levou o jogador até ali. Vicente e Nara, apesar de virem de universos diferentes, compartilham a mesma condição: ambos são pressionados por sistemas que transformam talento em mercadoria e vida em desempenho. Ela construiu uma carreira sólida, mas começa a perceber que o mundo que cobre está escapando ao controle. Ele quer sair do jogo, mas não consegue simplesmente parar.
O espetáculo também atravessa o impacto das inteligências artificiais na produção de informação e na própria noção de verdade — tema que Soares considera central no presente. A peça desmonta a fantasia de que dinheiro, fama e reconhecimento resolvem o abismo interior. O que aparece é o custo psíquico de continuar performando quando você já não aguenta mais.
Para Faustini, o retorno á direção teatral agora é um gesto essencial. "O teatro, pra mim, é o melhor lugar pra sentir e pensar a vida ao mesmo tempo. Voltar ao palco agora não é um gesto nostálgico. É um retorno ao essencial, ao lugar onde o encontro acontece sem mediação — no corpo, na palavra e no risco", opina, acrescentando que o teatro atravessou sua infância e juventude na periferia como espaço de descoberta, de linguagem e de possibilidade de mundo.
No elenco, Paulo Verlings interpreta Vicente, o jogador em colapso. Elisa Pinheiro é Nara, a jornalista de guerra. Ambos os atores estão em "estado de graça no palco", segundo Faustini. A direção transforma o encontro em uma partida falada, geopolítica, onde a consciência do público funciona como árbitro.
SERVIÇO
ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU
Teatro Ipanema (Rua Prudente de Morais, 824, Ipanema)
Até 24/5, às quintas e sextas (20h), sábados (17h e 20h) e domingos (19h)
Ingressos gratuitos, com retirada na bilheteria