Tem plim-plim no palco

Marcos Veras e Eliane Giardini lideram elenco de musical com 32 atores que revisitam à moda do Teatro de Revista personagens icônicos da Globo

Por Affonso Nunes

O musical 'Espelho Mágico' conta a história da TV Globo em seus 60 anos

Stanislaw Ponte Preta, o grande cronista, certa vez definiu a televisão como uma "máquina de fazer doido". Quando o diretor Gustavo Gasparani recebeu a missão de transformar seis décadas de história da TV Globo em um musical, enfrentou o mesmo dilema que seu personagem principal. Alfredo, vivido por Marcos Veras, é um autor que se vê diante de um volume monumental de temas, programas e momentos que definiram a vida cultural brasileira desde 1965. A solução? Pedir ajuda à Nossa Senhora das Oito — o apelido respeitoso dado à novelista Janete Clair, interpretada por Eliane Giardini em uma performance que traz à cena a mulher que revolucionou a teledramaturgia do país.

Este é "Espelho Mágico", espetáculo que desembarca nos palcos cariocas após temporada bem-sucedida em São Paulo, onde estreou em março no Teatro BTG Pactual. Orçada em R$ 11 milhões, esta superprodução traz um elenco de 32 atores selecionados por audições.

Mas o dilema que atormenta Alfredo não deixou de acossar Marcos Veras. "Foram ensaios muito intensos, praticamente três meses... Acho que foi o processo mais longo que eu tive no teatro eu acho que eu nunca ensaiei tanto tempo uma peça", conta o ator ao Correio. "Por mais que o texto tenha sido escrito pelo Gustavo Gasparani a construção dele foi feita também pelos atores pelo processo criativo então muita coisa que tava no texto saiu outras entraram é outras a gente entendeu que tava demais outras a gente sentiu falta e colocou improvisos cacos que viraram textos oficiais então contemplar 60 anos de história num espetáculo de 2h20 é um super desafio então teve momentos que o ator Marcos Veras também deu uma travada como é que eu narro essa história", completa.

Para Veras, o fato da montagem se desenrolar como no antigo teatro de revista foi uma solução para alguns problemas em amarrar tanta história num espetáculo de pouco mais de duas horas. "Em muita coisa a gente também abriu mão de do realismo e foi pra um lugar lúdico que é a televisão. A televisão tem jornalismo, mas tem a novela. Tem o humor, tem drama. Então o Alfredo costura essa história toda do início ao fim, mas há momentos em ele pira e tem momentos que ele está perdidamente apaixonado pela mocinha", avisa, revelando que essa alternância em cena foi um dos motivos que atraiu para o musical.

A trama se desenrola como uma jornada em que Alfredo e Janete encontram personagens que marcaram gerações. Emília e o Visconde de Sabugosa, de "Sítio do Pica-pau Amarelo"; Odorico Paraguaçu, de "O Bem Amado"; Sinhozinho Malta, de "Roque Santeiro"; "Tieta"; a família de "A Grande Família"; Dona Armênia, de "Rainha da Sucata"; Dona Jura, de "O Clone"; Bebel, de "Paraíso Tropical"; Ribamar, de "Sai de Baixo"; Tancinha, de "Sassaricando"; Carlão, de "Pecado Capital"; e Carminha, de "Avenida Brasil" são alguns desses personagens marcantes. Além desses, surgem em cena personalidades como Xuxa, Pedro Bial, Chacrinha e Roberto Carlos — figuras que fazem parte da memória afetiva dos telespectadores por gerações.

E se as novelas contam boa parte dessa história não se poderia deixar Janete Clair de fora. Contratada pela Globo em 1967 para reestruturar a novela "Anastácia, a Mulher sem Destino", ela promoveu uma transformação radical na teledramaturgia ao eliminar mais de 100 personagens e simplificar a narrativa, criando um modelo que se tornaria padrão. Suas novelas iam além do mero entretenimento: refletiam comportamentos, questionavam valores e ajudavam a apresentar o Brasil aos brasileiros. "Pecado Capital", por exemplo, discutiu temas como ética, corrupção e honestidade em horário nobre.

A trilha sonora de "Espelho Mágico" soma quase quarenta números musicais com canções que marcaram época. "Brasil", de Cazuza, que abriu "Vale Tudo" em 1988 e retornou no remake do folhetim exibido no ano passado; "Me Chama Que eu Vou" (Rainha da Sucata), "Dancin Days", "Per Amore" (Por Amor), "Irmãos Coragem", "Pavão Misterioso" (Saramandaia), além de clássicos de Xuxa ("Ilariê" "Lua de Cristal") e Roberto Carlos ("Emoções"). Cada canção espelha momentos específicos da história brasileira — a redemocratização, a ascensão da classe média, transformações de costumes, crises políticas e econômicas que encontraram ressonância nas narrativas televisivas.

O musical adota a linguagem do Teatro de Revista, gênero que floresceu no Brasil no início do século XX e que se caracteriza pela mistura de humor, sátira, números musicais e referências ao momento presente. Essa escolha não é meramente estética: o Teatro de Revista sempre funcionou como espelho da sociedade, comentando a atualidade através da paródia e da irreverência.

SERVIÇO

ESPELHO MÁGICO — O MUSICAL

Teatro Riachuelo Rio (Rua do Passeio, 38 — Centro)

Até 26/7, quintas e sextas (20h), sábados (16h e 20h) e domingos (15h) | Entre R$ 50 e R$ 180