Nelson Rodrigues, passado, presente e futuro

Bruce Gomlevsky leva aos palcos monólogo que explora o pensamento do jornalista, escritor e dramaturgo, considerado o pai do teatro moderno

Por Affonso Nunes

Bruce Gomlevski no Estádio das Laranjeiras onde Nelson se fez torcedor ferrenho do Fluminense

Nelson Rodrigues morreu há quase 50 anos, mas suas palavras continuam provocando reações. Neste mês de maio, o dramaturgo volta à cena — literalmente — em um monólogo que traz Bruce Gomlevsky interpretando o autor de clássicos como "Vestido de Noiva", "O Beijo no Asfalto" e "Álbum de Família". "Nelson Rodrigues - O Passado Sempre Tem Razão" está em cartaz no Teatro 2 do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB RJ), em temporada até o dia 25.

O monólogo não segue uma trajetória biográfica convencional. Quem assina a dramaturgia e a direção é o jornalista Carlos Jardim, que passou mais de quatro meses pesquisando o universo do escritor. Ao invés de contar cronologicamente a vida de Nelson, Jardim mergulhou em suas falas, escritos e pensamentos — reunindo trechos de entrevistas em vídeo, livros e crônicas para compor um texto que é quase 100% fiel aos originais do dramaturgo. "Busco mostrar o Nelson que não foge da polêmica, que faz reflexões profundas, mas que também se mostra humano e, às vezes, até vulnerável", explica Jardim.

Nelson Rodrigues não apenas escreveu para o teatro — redefiniu o que era possível dizer em cena no Brasil. Suas peças são até hoje radiografias do inconsciente coletivo carioca, desvendando camadas de hipocrisia, desejo reprimido e violência cotidiana que a sociedade preferia ignorar. Seus textos continuam gerando escândalo, identificação e incômodo — exatamente como quando estrearam. Sua linguagem, deliberadamente coloquial e brutal, recusava a elegância artificial do teatro de sua época. Críticos o ignoraram, plateias o vaiaram, censores o proibiram. Mas ele permaneceu impassível diante da rejeição, porque sabia que estava capturando verdades que ninguém mais ousava nomear.

Gomlevsky tem uma relação de longa data com a obra do dramaturgo — dirigiu espetáculos como "Bonitinha, Mas Ordinária" e "Anti-Nelson Rodrigues". Interpretar o autor era um desejo antigo. "Sou apaixonado pela obra dele. Um profundo conhecedor da psique humana. Autor de estilo único, criador de uma linguagem própria que coloca em cena e desnuda o que há de mais profundo no inconsciente humano", afirma Gomlevsky. O ator já viveu outros personagens reais em palco — Renato Russo, Raul Seixas — e no cinema interpretou Henfil. Para este projeto, estudou todo o universo rodrigueano, assistindo a entrevistas e depoimentos em uma pesquisa minuciosa.

O processo criativo foi colaborativo. Jardim chegou à sala de leitura com um roteiro pronto, mas deixou claro que estava aberto a sugestões. "Bruce é um apaixonado pelo Nelson e sonhava em interpretar o dramaturgo. Conforme fomos lendo e trabalhando no texto, ele foi trazendo trechos incríveis, que se encaixavam com perfeição à ideia original", conta Jardim. Bruce complementa: "Quando li a dramaturgia inicial já me apaixonei pelo projeto, mas sugeri que continuássemos em uma busca que pudesse enriquecer ainda mais a dramaturgia. Temos um diretor brilhante e muito aberto para um processo colaborativo".

Reprodução - Nelson Rodrigues leva o Brasil para dentro da dramaturgia produzida no país

O espetáculo traz reflexões que permanecem atuais. Temas como amor, adultério, morte, o Rio de Janeiro e suas contradições, o subúrbio carioca e seu cotidiano pulsante ganham espaço. Em 2026, ano de eleições e Copa do Mundo, as opiniões de Nelson sobre futebol, principalmente o Fluminense, e política — frequentemente polêmicas — entram em cena. Pensamentos que podem gerar identificação ou repúdio, mas que nunca deixam indiferente.

Para Jardim, trazer esses questionamentos é particularmente relevante em um momento de polarização. "O que mais me atrai é poder provocar discussões ainda muito pertinentes através do pensamento dele, especialmente no mundo de hoje, em que o diálogo e as dúvidas deram lugar a certezas absolutas e posições radicais que não admitem revisão".

Nelson Rodrigues nasceu em Recife em 1912, mas foi no Rio que consolidou sua identidade como jornalista, escritor e dramaturgo. Sua obra — peças, romances, crônicas, contos — é fundamental para a cultura brasileira. No teatro, alcançou seu apogeu com peças que se tornaram referência na dramaturgia brasileira. A crítica nem sempre o aplaudiu. Algumas de suas montagens foram vaiadas. O reconhecimento, muitas vezes, veio tardiamente, pois estava sempre à frente de seu tempo. Quase 50 anos após sua morte, em 1980, continua sendo celebrado, montado e debatido — embora, frequentemente, incompreendido. Como ele próprio afirmou em uma de suas máximas mais célebres: "toda unanimidade é burra".

SERVIÇO

NELSON RODRIGUES - O PASSADO SEMPRE TEM RAZÃO

Teatro 2 — Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 - Centro)

Até 25/5, segundas, quartas e sábados (19h) e domingos (18h) | Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)