Privilégios e solidão
'Edifício Vertigem' traz duas mulheres em confronto existencial no corredor de um prédio
'Edifício Vertigem' traz duas mulheres em confronto existencial no corredor de um prédio
Uma madrugada no Rio. Fernanda, de touca na cabeça, roupão e luvas de plástico, encontra Raquel no corredor do prédio onde moram. Raquel volta da Lapa, bêbada. O encontro constrangedor se transforma em uma noite de confissões, acusações e tentativas, nem sempre bem-sucedidas, de dar sentido a escolhas de vida que já foram feitas. A partir deste embate constrói-se a narrativa de "Edifício Vertigem", peça do dramaturgo gaúcho Pedro Gomes com direção de Lara Coutinho, em cartaz no Espaço Rogério Cardoso da Casa de Cultura Laura Alvim.
O corredor torna-se espaço de confronto com passado, presente e versões de si mesmas que ambas já não conseguem sustentar. A montagem mistura humor com crítica social, explorando tensões de uma geração de mulheres em torno dos 30 e poucos anos. Casamento, maternidade, solidão, luto, perdas e a relação com o próprio corpo são temas que emergem do diálogo entre elas, mulheres privilegiadas, cujos conflitos existenciais são moldados pelo contexto social em que estão inseridas.
Pedro Gomes explica a origem do trabalho. "O texto nasce de uma inquietação minha e sinto que também da minha geração. Acredito que a gente vem perdendo a conexão com o outro, que é fundamental para não ficarmos perdidos em nossas próprias projeções. A Fernanda e a Raquel precisam uma da outra nesse corredor. Elas enxergam na outra aquilo que falta nelas mesmas." O dramaturgo já havia publicado "O Pito Aceso", obra que analisa o papel dos intelectuais e da cultura no processo de transformação política e social do país.
Ana Cordeiro vive Fernanda. Formada em Artes Cênicas, trabalhou como assistente de direção com Domingos de Oliveira durante dois anos e participou do longa "Aconteceu numa Quarta-Feira" (2018), também dirigido por Oliveira. Integrou o elenco da minissérie "Todas as Mulheres do Mundo", de Jorge Furtado. "A Fernanda é uma mulher que não percebeu a vida passando. Vejo nela um esforço muito grande para se libertar das amarras nas quais ficou presa, com a ajuda da Raquel. Acho que muita gente já viveu ou vai viver momentos de questionamento, e a arte tem esse papel muito importante de iluminar pontos cegos das nossas vidas", comenta, ao falar de sua personagem.
Tamie Panet interpreta Raquel. Formada pela UNIRIO, atualmente integra o elenco da novela "A Nobreza do Amor" (Globo), onde vive Jamila. Participou de outras produções televisivas, como as novelas "Três Graças" e "Dona de Mim", além da série "Vermelho Sangue". "Sinto que Raquel e Fernanda têm os seus privilégios e as suas dificuldades, e que o encontro das duas serve muito como espelho para ambas. São personagens muito interessantes, muito contraditórias. Muitas vezes não percebemos, mas a vida sempre nos apresenta pessoas que nos mostram o que está bem na nossa frente", avalia a atriz.
Lara Coutinho assina a direção e, em parceria com Ana Elisa Schumacher, a direção de arte. Coutinho já trabalhou em projetos como "Homem com H" (Netflix), "Um Contra Todos" (Globoplay), "DOM" (Prime Video) e atualmente trabalha em longa sobre a biografia de Zeca Pagodinho, "Deixa a Vida me Levar". "As personagens falam de questões fixadas em muitas de nós. Penso na encenação como uma balança entre o humor e o desconforto, o controle e o desequilíbrio. O público percorre esse corredor concreto, mas preenchido pelo encontro do inconsciente das duas personagens", explica a encenadora.
A montagem, continua Lara, aponta para ua leitura crítica do tempo presente. "Para além do encontro profundo entre as duas, também adentramos a bolha à que elas pertencem e na qual habitam, enquanto o mundo continua acontecendo ao redor. A ideia é que a cena seja entrecortada por presenças que não fazem parte desta bolha — elementos que não foram convidados e nem ao menos reconhecidos, como os sons do mundo exterior. O barulho interior é tão alto que suprime a voz do coletivo", destaca a diretora.
SERVIÇO
EDIFÍCIO VERTIGEM
Espaço Rogério Cardoso (Casa de Cultura Laura Alvim - Avenida Vieira Souto, 176, Ipanema)
Até 31/5, às sextas e sábados (19h) e domingos (18h)
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)