Elisa Lucinda: 'Sou herdeira da esperança prática'
Zé-pereira da lírica brasileira, Elisa Lucinda assassinou a lógica por legítima defesa ao cometer encantarias como "Amanhecimento", cujos versos berram: "Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos/ o pio de todas as asneiras/ todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha/ para um dia partirem em revoada. / Ainda que nos anoiteça/ tem manhã nessa invernada". Há uma torcida organizada em prol da inclusão desse poema na antologia que a capixaba prepara para lançar em breve, com base em 40 anos de serviços prestados ao verso, enquanto brilha na televisão, em "Coração Acelerado". Na atual novela das sete da TV Globo, ela arrebata o público no papel de Zuleica. Entre a telinha e os livros, Elisa se prepara para festejar as andanças de suas quatro décadas de arte (e de Rio de Janeiro), batendo cabeça para a ancestralidade, em espetáculos programados para os domingos no espaço Manouche, no Jardim Botânico, às 18h. Poemas, músicas e causos se amalgamam no que ela vai entoar, na companhia do duo CAFUZØ, formado pelos instrumentistas Glaucus Linx (saxofone) e Sandro Lustosa (percussão). O show foi batizado de "Ensaio Para Uma Ideia, O Improviso Da Griô".
No papo a seguir, a diva de estrofes que deixaram a rotina transbordar na forma de utopias abre a gira do que o público carioca vai conferir a partir deste 3 de maio.
"Ensaio Para Uma Ideia, O Improviso Da Griô" mistura causos, lembranças, músicas e poemas. Como esse tanto de coisa se articula aí na caixinha da sua cabeça?
Elisa Lucinda - Nesse espetáculo, o que eu faço é deixar rolar. Eu chego no palco com algumas ideias que quero desenvolver. Aí, eu, que sou uma griô, vou contando histórias, partindo da ideia de que eu quero fazer desse espetáculo uma homenagem especialmente ao Rio de Janeiro onde eu cheguei 1986, e fui fazendo apresentações em bares, na noite. Elas eram minhas sementes, embora eu não soubesse, e, daí, estou fazendo 40 anos de carreira agora. Naquela época, eu não tinha livros publicados. Eu fazia tudo nesses shows: o roteiro, o cartaz, os poemas... Vendia poesias em forma de papiros, enroladinhos, porque não tinha livro. Fazia uns livros manuais. Um dia, falando com Zezé Polessa, minha amiga, eu disse: "Zé, precisamos procurar um texto pra gente montar". Ela me disse: "Não, Elisa, EU preciso procurar; você, não, pois você é autora, você faz tudo". Aí caiu minha ficha.
O que o duo CAFUZØ, com Glaucus Linx (saxofone) e Sandro Lustosa (percussão), dá a você de mais valioso no palco?
Confiança. Muito experientes, eles potencializam o encantamento que eu busco na noite, a cada apresentação, pois produzem efeitos na música que ilustram o tipo de nutrição inerente à minha viagem na arte.
O que o Manouche representa num cenário hoje reduzido de casas de show no Rio?
Quando eu pisei lá, me deu uma saudade daqueles bares dos anos 1980, com as pessoas bebendo e eu falando poesia. É uma casa aconchegante, de bom gosto, que lembra um cabaré sofisticado. É um lugar onde a palavra tem espaço.
Sua poesia tem um olhar prospectivo. Volta-se para o amanhã, celebrando o hoje e o agora, diferente do que se ouve de muitas vozes poéticas, mais nostálgicas. De onde essa fé?
Sou herdeira da esperança prática. Meus pais eram modernos, esclarecidos. Minha mãe sempre trocava o pretérito pelo futuro. Se eu dizia "queria conhecer a Grécia", ela dizia: "Queria, não; quer. Se quer, então vai". Isso criou em mim uma potência de acreditar que o jogo pode virar. Minha esperança não é boba, ela é prática.
Você tem novos livros para sair nesse marco comemorativos dos teus 40 anos de arte?
Tem sim, pois essa fábrica eu não fecho. Saiu o "Diário do Vento", com fotografias feitas ao longo de 40 anos em Itaúnas (ES), pelo meu amigo fotógrafo, Vitor Nogueira, com poemas meus. Tem ainda uma antologia poética pela Record, reunindo quatro livros meus. Estou fazendo o terceiro da série (com a personagem) Edite, "O Demônio dos Vestidos".
E no audiovisual, o que vem por aí, além da novela "Coração Acelerado"?
Fico nessa novela até julho e estou também em "Dona Beja", da HBO Max. Eu estou no filme "Geni e o Zepelim", da Anna Muylaert, em que faço a mulher do Seu Jorge. Fiz também um filme com a Grace Passô, dirigido pelo Ricardo Alves Jr., que é meio de terror (e tem um nome provisório de "A Professora de Piano"). Estou ainda em "Cartas Para...", da Vânia Lima, um documentário bonito demais. No segundo semestres, o espetáculo "Princípio do Mundo" volta aos palcos. Estou apaixonada por esse trabalho, todo em poesia rimada. Já os livros da Edite vão virar série.
SERVIÇO
ENSAIO PARA UMA IDEIA, O IMPRIVISO DA GRIÔ
Manouche (Rua Jardim Botânico, 983)
De 3 a 31/5, sempre aos domingos (18h)
Ingresssos: R$ 100, R$ 50 (meia) e R$ 80 (ingresso solidário, levando 1kg de alimento não perecível)