O dragão nosso de cada dia
Fábula política de Eugène Schwartz sobre tirania estreia neste feriado no Armazém da Utopia
Fábula política de Eugène Schwartz sobre tirania estreia neste feriado no Armazém da Utopia
Uma cidade sufocada há 400 anos sob o jugo de um dragão de três cabeças é o ponto de partida de "O Dragão", fábula política que a Companhia Ensaio Aberto leva aos palcos a partir deste feriado de sexta-feira (1). Escrita pelo dramaturgo russo Eugène Schwartz (1896-1958) em 1943, durante o exílio forçado na Ásia Central, a peça usa a linguagem dos contos maravilhosos para abordar temas de opressão, resistência e o preço da liberdade.
Schwartz concebeu a obra em um contexto de urgência histórica. Banido junto com a companhia do Teatro de Comédia de Leningrado para Dushanbé, no Tajiquistão, em 1943, o dramaturgo completou o texto em um ano de isolamento. O autor recorria à fantasia para contornar a censura soviética, atacando a propaganda, a obediência cega e o abuso de poder, notadamente em "O Dragão" e "A Sombra".
Suas peças desse período resgatam as conquistas do teatro russo-soviético dos anos 1920 e 1930, período em que a vanguarda teatral — representada por diretores como Vsevolod Meyerhold — explorava a fusão entre expressionismo, simbolismo e crítica social. Chagall, pintor que também trabalhou com teatro naquela época, influenciou gerações de artistas com sua linguagem visual onírica. A cenografia de J. C. Serroni para esta montagem recupera toda essa herança, criando um espaço cênico onde o fantástico e o político coexistem.
"'O Dragão' é uma peça que, apesar de escrita em 1943, traz de volta as conquistas do teatro russo-soviético. Um texto profundamente político, no qual a fantasia tem um papel fundamental. O espetáculo é oportuno e necessário, especialmente quando nos encontramos na iminência de uma possível 3ª Guerra Mundial e assistimos passivamente ao assassinato de milhares de civis em Gaza, no Líbano e em outras partes do mundo", ressalta Luiz Fernando Lobo.
O encenador constrói para este espetáculo um grande dispositivo cênico que incorpora acrobacia aérea. Um dragão de seis metros sobrevoa a plateia, suspenso por uma estrutura projetada por Claudio Baltar. A acrobacia é assinada por Adelly Costantini e Lana Borges. As máscaras e adereços — incluindo a máscara do gato e a cabeça do dragão — foram confeccionados por Eduardo Andrade. Beth Filipecki e Renaldo Machado vestem os personagens; Cesar de Ramires desenha a luz; Felipe Radicetti assina a direção musical e trilha original.
O elenco reúne 24 atores em revezamento. Leonardo Hinckel encarna Lancelot, o cavaleiro que desafia o dragão; Tuca Moraes é o gato, a consciência crítica da fábula; Luiza Moraes interpreta Elsa; Gilberto Miranda, Carlos Magno; Claudio Serra, o burgomestre; Mateus França, Henrique. Luiz Fernando Lobo também atua como o dragão. A preparação corporal é de Luiza Moraes. A tradução é de Maria Julieta Drummond de Andrade, com produção de Tuca Moraes e produção executiva de Aninha Barros.
A estrutura da fábula permite que Schwartz explore como a opressão funciona seja pela força bruta seja pela cumplicidade e o medo normalizado, pela aceitação de que "sempre foi assim". O dragão não precisa matar ninguém, pois basta que a cidade acredite que é invencível. Essa lógica da tirania — que não depende apenas da violência, mas da resignação coletiva — é o ponto central da narrativa.
SERVIÇO
O DRAGÃO
Armazém da Utopia (Armazém 6, Cais do Porto, s/nº)
De 1/5 a 8/6, de sexta a segundas-feira (20h)
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia) | Valores sociais para grupos: (21) 97976-0046 (WhatsApp)