A força da oralidade das carpideiras

Texto premiado de Newton Moreno, 'As Centenárias' vira comédia musical com as atrizes-cantoras Juliana Linhares e Laila Garin

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Laila Garin e Juliana Linhares colocam suas vozes a serviço do nobre ofício das carpideiras nesta versão musical da premiada peça de Newton moreno

Texto premiado de Newton Moreno, 'As Centenárias' vira comédia musical com as atrizes-cantoras Juliana Linhares e Laila Garin

Quase duas décadas depois de sua montagem com as interpretações de Marieta Severo e Andréa Beltrão, "As Centenárias" volta aos palcos em nova roupagem. Desta vez a premiada peça de Newton Moreno ganha versão musical inédita, com direção de Luiz Carlos Vasconcelos e protagonismo das atrizes-cantoras Juliana Linhares e Laila Garin, em cartaz no Teatro Carlos Gomes.

A nova encenação aprofunda a relação da dramaturgia com a cultura popular ao incorporar 16 canções originais compostas por Chico César. A narrativa acompanha duas mulheres centenárias que percorrem o sertão realizando rituais de despedida — uma história que equilibra humor e emoção ao retratar a força das tradições, da oralidade e da ancestralidade nordestina. O elenco conta ainda com o ator Leandro Castilho, que interpreta mais de seis personagens na montagem.

"É muito doido tirar do papel essas personagens muito inspiradas, pela montagem de Aderbal Freire Filho, com Marieta Severo e Andréa Beltrão. Inclusive, fui pedir a bênção de Marieta Severo para encarnar Dona Socorro e ela me deu essa bênção, graças a Deus. E agora nos ensaios estamos descobrindo o nosso caminho, qual é a cara dessa montagem de agora", afirma Laila Garin, que define o processo de construção da personagem como uma jornada de descobertas.

Juliana Linhares ressalta que a nova leitura nasce do encontro entre teatro, música e identidade regional. "Eu já tinha vontade de fazer algum projeto com a Laila há muito tempo, e um dia surgiu a ideia: e se a gente fizesse 'As Centenárias'? Com duas atrizes nordestinas e cantando. Como o carpir está ligado ao canto, pensei que as canções poderiam surgir desse choro. A música para mim é um motor dessa montagem", justifica, ao lembrar da importância das carpideiras — mulheres que historicamente realizam rituais fúnebres no sertão através da voz, da oração e da ladainha - para o contexto sertanejo.

Leandro Castilho destaca a complexidade de atuar dando voz a seis personagens diferentes na trama. "É sempre um desafio porque cada peça tem uma linguagem diferente. A transição entre eles é uma coisa que não dá nem para pensar muito. Nesse espetáculo, eu estou no processo de desenhar cada personagem, porque eu trabalho muito a partir do corpo. O corpo sugere uma voz, que sugere um trejeito, e assim eu vou criando esse desenho desse personagem, esse contorno", explica o ator.

Responsável pela trilha inédita, Chico César conta que o processo de composição partiu diretamente da dramaturgia de Newton Moreno. "Eu recebi o texto do Newton Moreno já com indicações de lugar onde ele queria as canções, já com letra. No geral, respeitei aquilo, alterei uma coisa ou outra. O texto é muito bonito, muito forte. Acho que trazer essa voz da mulher brasileira com essência nordestina é uma alegria para mim", diz o compositor, autor de obras de forte teor social com influências do folclore nordestino.

O autor, Newton Moreno, destaca que se interessou pela adaptação musical da obra assim que a ideia lhe foi sugerida. "É importante considerar que as carpideiras realizam uma base relevante de seu trabalho por meio de cantos, rezas, ladainhas. Há uma demanda musical muito forte na orquestração do luto", argumenta.

SERVIÇO

AS CENTENÁRIAS

Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/nº, Centro)

Até 10/5, às quintas e sextas (19h) | sábados e domingos (17h) | Ingressos a partir de R$ 50