O gongo ainda não soou, já o terceiro sinal...

Às vésperas da celebração de seus 50 anos, 'Rocky, Um Lutador' vira espetáculo teatral em Buenos Aires, com Nicolás Vázquez, e inspira livro de Sylvester Stallone, além de novo filme

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A saga do resiliente Rocky Balboa (Nicolás Vázquez) é levada aos palcos portenhos e vem lotanda cada noite de encenação no Teatro Lola Membrives

Às vésperas da celebração de seus 50 anos, 'Rocky, Um Lutador' vira espetáculo teatral em Buenos Aires, com Nicolás Vázquez, e inspira livro de Sylvester Stallone, além de novo filme

Quem andar por Buenos Aires, ao largo da Av. Corrientes, no caminho do Obelisco, vai trombar, ali pela altura do número 1280, com um fragmento afetivo da Hollywood dos anos 1970 que modificou a fachada do Teatro Lola Membrives: uma reinvenção de "Rocky, Um Lutador" para os palcos. O longa-metragem que transformou Sylvester Stallone num astro (e num ícone de superação) estreou no dia 21 de novembro de 1976. Tem muita coisa esperada para festejar seus 50 anos, incluindo um livro de memórias que Stallone escreveu (à mão) e um filme sobre seus bastidores. A direção é de Peter Farrelly (de "Green Book: O Guia"). O longa se chama "I Play Rocky" e tem Anthony Ippolito no papel de Sly (apelido do eterno Rambo). Os argentinos, contudo, saíram na frente... O "Rocky" deles está lotando toda noite. É um fenômeno teatral.

O astro é Nicolás Vázquez. Ele também assina (em duo com Mariano Demaía) a direção do espetáculo, que não segue os moldes de um recente musical da Broadway (já encenado no Brasil), primando mais pelo tônus melodramático (de pavimento marxista) do filme. A peça revive os bastidores da produção cinematográfica de 1976, orçada em US$ 1,1 milhão, que fez de Balboa um signo de resiliência. Sua bilheteria beirou US$ 225 milhões, ganhando cinco continuações entre 1979 e 2006, além de inspirar a franquia "Creed" (2015-2023). Em 1977, o longa conquistou os Oscars de Melhor Filme, Direção (John G. Avildsen) e Montagem (Richard Halsey e Scott Conrad).

Debruçado hoje sobre a série "Tulsa King" (da Paramount ), Stallone arrumou uma antipatia pesada na ala do Partido Democrata dos EUA - e de demais grupos de esquerda - ao anunciar apoio ao presidente Donald Trump, em 2025, comparando-o a Jesus Cristo. O gesto surpreendeu (e desapontou) seus fãs, dada a histórica postura de neutralidade do astro de 79 anos, que sempre evitou alinhamentos com líderes políticos. Foi explicitamente cobiçado por Ronald Regan (1911-2004) como um garoto propaganda para ideologias intervencionistas no tempo em que brilhava com "Rambo II - A Missão" (1985). Hoje, uma série de mudanças na dinâmica simbólica de Hollywood, supostamente impostas pela cultura woke, levaram-no a pensar e agir diferente, frente ao sucateamento do cinema de ação, do qual é um ícone.

"Eu não vejo a arte como um correio, que precisa levar mensagens explícitas às pessoas. O que os filmes provocam de encanto vem da transcendência", reclamou o astro num Zoom com a Golden Globe Foudation, em outubro, ao finalizar o livro sobre o "Rocky" que está para sair.

Apesar do arranhão causado pela sanha trumpista de Stallone, Rocky Balboa segue intacto e amado, num culto que agora se expande pelas artes cênicas da Argentina, numa tradução feita por Fernando Mallorens e Federico González del Pino da versão teatral escrita por Thomas Meehan com Stallone, em 2012. A música é de Stephen Flaherty, com letra de Lynn Ahrens, na garantia de que "Eye of the Tiger" (o hit executado no terceiro longa, lançado em 1983) seria preservado.

Em cena, uma estrela das ribaltas portenhas, Dai Fernández, vive Adrian, a paixão do pugilista, celebrizada na telona por Talia Shire (irmã de Francis Ford Coppola). Leo Trento vive o irmão grosseirão da moça, Paulie. David Masajnik encarna Mickey, treinador e figura paterna de Rocky. Já o papel de Apollo Creed foi confiado a Merlyn Nouel.

Quando vendeu seu roteiro (escrito em três dias e meio, como ressaca pós uma luta de Muhammad Ali) para a United Artists, Stallone sonhava protagonizá-lo, mas ouviu nomes mais famosos do que ele serem citados como potenciais escolhas para interpretar o Garanhão Italiano. Os mais cotados eram Robert Redford, Ryan O'Neal, Burt Reynolds e James Caan. Mas Stallone bateu o pé: só venderia o script se o papel central fosse seu. E Irwin Winkler e Robert Chartoff bancaram a escolha, levantando o filme com orçamento de US$ 1 milhão. Pensaram em Carrie Snodgress e Susan Sarandon para viverem Adrian, mas quem levou a personagem foi Talia Rose Coppola Shire. Para o lugar de Apollo, o Doutrinador, pensou-se no boxeador Ken Norton, mas quem ganhou o short com as cores e listas da bandeira dos EUA foi Carl Weathers, morto em 2024. "Quando Carl entrou na sala, em que fazíamos o casting, ele encheu cada milímetro com seu carisma, era uma estrela nata", disse Stallone, em seu Instagram.

Na direção, John G. Avildsen inovou a engenharia de filmagem hollywoodiana da década de 1970 ao deixar uma câmera móvel nas filmagens das lutas. "Na vida, você nunca pode baixar a guarda e deixar de socar os desafios", disse Stallone no Festival de Cannes em 2019, ao receber da Croisette uma homenagem por suas cinco décadas de carreira.

Parte da história de Balboa foi narrada pelo documentário "40 Years of Rocky: The Birth of a Legend" (2020), do cineasta Derek Wayne Johnson. Ele tratou do tema também no seminal "John G. Avildsen: King of the Underdogs" (2017), com depoimentos de Seu Sylvester.

"O primeiro Rocky traz uma das cenas mais emblemáticas de redenção de toda a História do Cinema: no round 14, quando Balboa cai, todo mundo diz para ele continuar no chão e desistir, mas ele fica de pé, mesmo cambaleante, sem desistir, afoito por mais uma chance de lutar", lembrou Johnson em entrevista ao Correio concedida na finalização de seu longa anterior, "Stallone: Frank, That Is", sobre o irmão mais moço de Sylvester. "Minha vida não teria sido a mesma sem essa cena de Rocky".

Mítica, a escadaria do Museu de Arte da Filadélfia, revisitada por Johson em seu .doc), comove Buenos Aires na reinvenção de Nicolás Vázquez. O público vai a nocaute.