Maturidade e reinvenção

Aos 93 anos, Rosamaria Murtinho brilha no papel de Iris Apfel em 'Uma Vida em Cores'

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Rosamaria Murtinho contracena com a veta Sofia Mendonça em 'Uma Vida em Cores'

 

Aos 93 anos, Rosamaria Murtinho brilha no papelo de Iris Apfel em 'Uma Vida em Cores'

Do alto de seus 93, Rosamaria Murtinho dá um chute no etarismo e sobe ao palco para viver a designer americana Iris Apfel em "Uma Vida em Cores". A peça, com texto e direção de Cacau Hygino, chega ao Teatro das Artes para uma temporada que vai de 18 de abril a 21 de junho. O projeto, que começou há mais de nove anos como monólogo protagonizado por Nathalia Timberg, ganha agora uma nova versão que coloca em cena a veterana atriz, Sofia Mendonça (neta de Rosamaria) e Simone Soares.

A peça se inspira na trajetória de Iris Apfel, falecida em 1º de março de 2024 aos 101 anos. Conhecida por seus óculos redondos icônicos, colares exuberantes e postura contemporânea, Apfel se tornou referência de estilo em uma indústria que frequentemente descarta a maturidade. A montagem coloca em foco justamente isso: a potência da idade, a reinvenção constante e a recusa em aceitar limites impostos pelo tempo.

O encontro entre Hygino e Iris começou de forma improvável. Em 2017, o dramaturgo descobriu a designer pelas redes sociais. Intrigado com a imagem daquela mulher de óculos redondos e colares exuberantes, decidiu investigar quem ela era. Ao perceber um tapete com a inscrição "PA 480" na entrada de um prédio fotografado, deduziu que se tratava do endereço da empresária em Nova York — suspeita confirmada por um amigo que morava lá. Após meses de cartas, telefonemas e envio de material sobre o projeto, Iris retornou a ligação. O encontro em Nova York resultou em uma amizade que inspirou o monólogo "Através da Iris", que circulou nacionalmente com teatros lotados até a interrupção causada pela pandemia.

Com a impossibilidade de continuar a montagem original, o texto permaneceu guardado até que Hygino decidisse retomá-lo sob esta nova perspectiva. A escolha de Rosamaria Murtinho para o papel tem um caráter afetivo e artístico. Hygino e Rosamaria são amigos desde que ele tinha 18 anos — em 1998, dividiram o palco no musical "O Abre Alas", de Maria Adelaide Amaral, quando ele interpretou o irmão da atriz. Ao ser convidada para viver Iris, Rosamaria colocou uma condição: contracenar com sua neta. A proposta gerou esta nova dramaturgia, incorporando Simone Soares como Juliet, a fiel escudeira de Iris.

A versão atual abandona o formato de monólogo e transforma a narrativa em um diálogo. Emily (Sofia Mendonça), jovem jornalista e estagiária da revista Vogue americana, recebe a missão de entrevistar Iris — uma matéria que pode definir seu futuro profissional. O encontro formal se transforma em jogo de provocações, humor e cumplicidade. Entre memórias e reflexões, emergem temas como etarismo, moda como identidade, amor, luto, escolhas e legado.

A dramaturgia mistura ficção e memória afetiva, incorporando episódios reais da vida de Iris, inclusive sua relação de 68 anos com o marido Carl Apfel.

Cacau Hygino consolidou carreira plural entre dramaturgia, pesquisa biográfica e interpretação. É autor de livros incluindo biografias de Zezé Motta, Nathalia Timberg, Irene Ravache e Nicette Bruno. Em 2026, lança as biografias de Ana Rosa e Stenio Garcia — primeira vez que escreve sobre um artista homem. Além da literatura, desenvolve roteiros para televisão e mantém atuação constante no audiovisual.

"Uma Vida em Cores" integra projeto mais amplo do autor, voltado à criação de espetáculos inspirados em personalidades da moda e cultura internacional. Hygino já escreveu "A Soberana", sobre a editora de moda Diana Vreeland — para o qual Carolina Ferraz foi convidada — e "Lee & Blow", que retrata o encontro entre o estilista Alexander McQueen e a editora Isabella Blow. SERVIÇO

UMA VIDA EM CORES

Teatro das Artes (Shopping da Gávea - Rua Marquês de São Vicente, 52 - 2º Piso - Loja 264)

De 18/4 a 21/6, aos sábados e domingos (18h)

Ingressos: R$ 140 e R$ 70 (meia)