CRÍTICA / TEATRO / OS IRMÃOS TiMÓTHEO DA COSTA: Pintura de Pilar
Oapagamento histórico dos pintores Arthur e João Timótheo da Costa é o tema central do edificante espetáculo. O texto de Cláudia Valli é bem engendrado, dando margens à possibilidades criativas. A dramaturga inclina-se pela trajetória desses artistas formidáveis, criando uma espécie de alter ego, pelo qual investiga-se a melancólica passagem desses irmãos pintores impressionistas no início do século XX. Os artífices foram banidos da cultura preta nacional através do racismo estrutural que perdura até hoje.
Uma estrutura dinâmica fabula a narrativa, enquanto a própria autora constrói poeticamente e discorre sobre os acontecimentos. Os irmãos terminam internados no hospital psiquiátrico sob a direção do Dr. Juliano Moreira, psiquiatra humanista e avesso à teorias racistas.
Luiz Antonio Pilar, conduz com talento e sagacidade todas as funções que perpassam seu espetáculo, gerando um dos melhores da temporada carioca. Marcas fluidas que dão movimento, criando cenas memoráveis com suspensões de tirar o fôlego, emociona e coloca seu elenco num diapasão pouco visto. A encenação impõe uma teatralidade, pela qual somos seduzidos todo o tempo. Numa estética irretocável, o diretor potencializa o drama e investe em detalhes minuciosos, como um Rembrandt, que influenciou futuramente os impressionistas.
Os atores Jeniffer Dias, Luciano Quirino e Pablo Áscoli estão atentos ao jogo, nada é desperdiçado. Todos em perfeita sinergia, com destaque para Sérgio Kauffmann, que filigrana seu Arthur com extrema sensibilidade, imbuído em voltagens díspares, nas quais percebe-se a destreza de seu talento. A cena em que a personagem está hospitalizada é primorosa, onde o intérprete esvazia-se, em acertadas pausas dramáticas. Lucas Da Purificação desenha com propriedade seus papéis, com pitadas de humor em ótima expressão vocal.
As telas transparentes da cenografia de Cachalote Mattos deslizam pelo palco, viabilizando projeções deslumbrantes, além de propiciar a incidência da luz barroca de Daniela Sanchez, que estabelece uma profusão de luz e sombra, favorecendo a dramatização. Rute Alves opta por uma sofisticação em apresentar uma indumentária fidedigna do século passado, mesclando figurino atual. A direção musical com composições originais de Muato é a pincelada final para que o quadro de Pilar pudesse ser exposto. Há uma criatividade potente nas letras, equalização nos vocais, proporcionando mais beleza e encantamento.
"Os Irmãos Timótheo da Costa" é mais uma vez um grito que precisamos registrar para que, urgentemente, nenhum ser humano venha a ser repudiado pela tonalidade da sua pele. A abolição da escravatura no Brasil ocorreu em 13 de maio de 1888, mas ainda há uma parcela (humana?) que insiste em valorizar preconceitos fabricados por almas que, naturalmente, não terão tintas suficientes para colorir o seu próprio quadro da felicidade.
SERVIÇO
Teatro I do CCBB (Rua Primeiro de Março, 66, Centro)
Até 19/4, quinta a sábado e segundas (19h) | domingos (18h). | Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)