Uberização na ribalta

Espetáculos como 'Jonathan' e o esperado 'Cabo Solto' levam as estratégias de sobrevivência laboral da periferia para o epicentro da maior maratona teatral do país

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

'Cabo Enrolado' promove um estudo sobre as estratégias de sobrevivência laboral do mundo uberizado

Espetáculos como 'Jonathan' e o esperado 'Cabo Solto' levam as estratégias de sobrevivência laboral da periferia para o epicentro da maior maratona teatral do país

Evocado faz pouco nos palcos do Rio, numa montagem de "Quando As Máquinas Param" sob a direção de Heitor Martinez, Plínio Marcos (1935-1999) deixou como herdeiros espirituais (e éticos) uma leva de exercícios teatrais que hoje salpicam de indignação as paragens do Festival de Curitiba numa exposição da uberização do mundo laboral. Não há emprego... o bom e velho modo CLT. Há empreitadas. Atividades mal remuneradas curtas, sem calções, sem FGTS, que se estruturam, na margem do risco, pelas ruas. Essas novas práticas são o foco dramatúrgico de "Cabo Enrolado", uma das peças mais esperadas da reta final do evento n° 1 das artes cênicas nacionais, com sessões prometidas para os próximos dias 11 e 12, no Teatro José Maria Santos.

A realização é da Companhia Graxa, com Julio Lorosh em cena. Sobre os tijolos de uma casa em construção vemos a infância de um jovem periférico sendo edificada. Mais tarde, esse mesmo jovem adentra ao mercado de trabalho "livre", oferecido pelos aplicativos de entrega. Sobre os quadros de sua vida vemos o eco colonial do trabalho no Brasil, sonhos, angústias e anseios da juventude periférica.

As explorações de um mundo pautado entre iFood, o 99, a Uber e afins, foram debatidas em Curitiba, entre a alegoria e o realismo, na montagem "Jonathan". Exercício decolonial, a peça aborda a biografia de uma centenária tartaruga, considerada o ser vivo mais antigo vivo na Terra. Paralelamente ao festejo do quelônio, vemos o processo de amadurecimento do jovem do título, às voltas com todas as asperezas de sobreviver em um mundo que o quer submisso. Rafael Souza-Ribeiro é o astro em foco, sob a direção de Dulce Penna. Seu personagem herda o legado de zelar por um animal que é o ícone maior da longínqua ilhota de Santa Helena, entre a África e as Américas, onde estampa camisetas, bonés e até moedas de 5 centavos. De frente para a criatura centenária, o protagonista descobre que sua missão envolve uma disputa pela memória... e pelo futuro, confrontando legados do colonialismo.

Roberto Carneiro/Divulgação - 'Jonathan' se põe entre cascos e ancestralidades

No fim de semana, a maior descoberta de Curitiba se fez aplaudir no Guairão, o Maracanã dos teatros brasileiros: "Na Marca Do Pênalti", um monólogo confessional egresso de SP, com Walter Casagrande Júnior. O ídolo do Corinthians e da seleção brasileira, que depois seguiu carreira como um dos comentaristas de futebol mais lúcidos e politicamente esclarecidos do país, rasga seu coração em cena. Pela primeira vez num palco, sob a direção de Fernando Philbert, com quem construiu a dramaturgia, Casagrande conta sua história.