Uma cidade-palco
Até 12 de abril, o Festival de Curitiba faz da capital do Paraná lar das mais inovadoras experiências cênicas do teatro brasileiro, num mapa vivo de tragédias, comédias e resiliência
Até 12 de abril, o Festival de Curitiba faz da capital do Paraná lar das mais inovadoras experiências cênicas do teatro brasileiro, num mapa vivo de tragédias, comédias e resiliência
Pouco antes de a pandemia tossir na cara do mundo, o Brasil contabilizava oficialmente 350 festivais de cinema, um número que não baixou muito, mas que, apesar da diversidade das praças ocupadas, segue a ter Gramado como seu evento mais popular. Já no caso das artes cênicas, nenhum acontecimento neste país supera o Festival de Curitiba, que transforma a capital do Paraná numa embaixada latino-americana para a invenção. A edição de número 34 começou na segunda-feira e contabiliza 300 atrações (no mínimo), em seus diversos espaços culturais - além das ruas, nas praças da cidade e sua região metropolitana.
Fabíula Passini e Leandro Knopfholz, que dirigem a maratona curitibana, asseguraram a presença de medalhões como como Malu Galli, Du Moscovis, Herson Capri, Natália do Vale, Nelson Motta e Miguel Falabella em seus palcos, além de grupos e companhias consagradas como o Corpo, o Armazém Cia de Teatro, o Coletivo Prot{agô}nistas, o Grupo Magiluth, o Coletivo Negro, a Companhia de Teatro Heliópolis, a Súbita Cia de Teatro e o Corpo Rasteatro. Já na arrancada, na terça (com mais uma sessão nesta quarta), o Grupo Galpão reinventa José Saramago numa encenação de "Ensaio Sobre a Cegueira". A vida teatral paranaense será intensa daqui até o próximo dia 12, quando as atividades se encerram.
O mapa da mina, cartografado a partir das principais salas a serviço do festival, é o seguinte...
GUAÍRA - GUAIRÃO - Maracanã do nosso teatro, o Guaíra - Guairão receberá espetáculos como a estreia nacional de "Na Marca do Pênalti", em que o comentarista esportivo, jornalista e ex-futebolista brasileiro Walter Casagrande Júnior revisita sua carreira e também encara os clássicos mais difíceis de sua vida. Por lá passa também o aclamado drama "Dois Papas", primeira montagem em âmbito global do texto de Anthony McCarten, filmado por Fernando Meirelles em 2015. Badalada em sua passagem pelo Rio, a comédia "A Sabedoria dos Pais", dirigida Falabella, vai encantar novas plateias com o reencontro de Herson Capri com Natália do Vale. Na seara da fricção, muito se espera de "Piracema", nova coreografia do Grupo Corpo, que marca os 50 anos da companhia em um balé centrado na noção de continuidade e de renovação.
GUAIRINHA - Nesse templo mais intimista, a Armazém Companhia de Teatro apresenta "Dias Felizes", um elogiado drama que constrói um jogo cruel e fascinante, em que cada palavra dita ressoa como um eco entre a esperança e o delírio, tendo Patrícia Selonck em seu apogeu. Por lá, neste fim de semana, Juana Profunda brilha em "O Grande Cabaré Combo Drag Week", que celebra os seus 10 anos de trajetória, com a participação especial de Miranda Lebrão. Ali mesmo, no Guairinha, o circo vai mobilizar o Coletivo Prot{agô}nistas em "{FÉ}STA", um rito cênico de ancestralidade. Fenômeno da hora nos palcos cariocas, "Mulher em Fuga", com Malu Galli e Tiago Martelli, exorcizam fantasmas de prosa com a "literatura do eu" de Édouard Louis.
ÓPERA DE ARAME - O Teatro Municipal do Rio de Janeiro - que no domingo recebeu John Malkovich para uma récita lotada - perde, em beleza, para essa casa tão linda de Curitiba. O local, que foi construído para abrigar o primeiro espetáculo da história do Festival de Curitiba, volta a receber peças com a nova montagem de "A Máquina", comédia que marcou a história da dramaturgia brasileira e revelou ao país os talentos de um quarteto pouco modesto: Wagner Moura, Lázaro Ramos, Gustavo Falcão e Vladimir Brichta. Agora, um novo elenco dá conta da fábula nietzschiana de João Falcão. Ali na Ópera vai ter também "Édipo REC", novo trabalho Grupo Magiluth criado a partir da Tebas do "Édipo Rei", de Sófocles.
TEATRO JOSÉ MARIA SANTOS - Essa cada de austera eficácia recebe "A Boca Que Tudo Come Tem Fome (Do Cárcere às Ruas)", da Companhia de Teatro Heliópolis. Essa peça usa espelho d´água e elementos da cultura afro-brasileira para retratar a luta de quem tenta reconstruir a vida após a prisão. Ali, encena-se ainda a nova peripécia da Súbita Companhia de Teatro, "Deriva", que ativa os sentidos e provoca deslocamentos de percepção ao fundir o real e o ficcional, desestabilizando certezas e abrindo espaço para o encantamento do cotidiano. Tem também o desempenho em carne viva de Angel Ferreira em "Sidarta", obra livremente inspirada no livro homônimo de Hermann Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, sendo indicada ao Prêmio Shell em Iluminação. Espera-se um bocado também de "Cabo Enrolado", que evoca o imaginário periférico de maneira divertida e poética, fazendo uso da musicalidade e da dança presentes na cultura urbana paulistana, tais como funk e hip-hop.
SESC DA ESQUINA - Não se faz teatro no Brasil sem um bom Sesc, e em Curitiba não é diferente. Por lá acontece o espetáculo "Reparação", um drama contemporâneo inspirado em um caso real de violência contra uma jovem, conduzindo o público a um salão de beleza dos anos 1980, onde manicure e cabeleireira atuam em cena. Muito se aguarda a montagem "Jonathan", que aborda a biografia de uma centenária tartaruga, considerada o ser vivo mais antigo vivo na Terra. Paralelamente ao festejo do quelônio, vemos o processo de amadurecimento do jovem Jonathan, às voltas com a realidade de ser negro em um mundo que o quer submisso. É na Esquina que senta praça a peça internacional de dança "Brace", consolidando Edivaldo Ernesto como uma das vozes mais potentes da expressão contemporânea. Calcado em Machado de Assis, "Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo", escancara o sistema venoso do racismo no fio do Bruxo do Cosme Velho. Falando em artérias rasgadas, Curitiba acolhe "Veias Abertas 60 30 15 Seg", inspirado na literatura do uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), que percorre o território latino-americano revelando suas feridas históricas, contradições profundas e lutas ainda não cicatrizadas.
TEATRO CLEON JACQUES - A charmosa casa recebe "Vinte!", projeto que combina música, teatro e artes visuais em uma experimentação cênica e sonora inspirada no choro, jazz e samba. Caberá também ali a peça-instalação de dança "A Bailarina Fantasma", criada a partir da icônica e polêmica escultura francesa 'A Bailarina de 14 anos', do escultor Edgar Degas, em fricção com os relatos autobiográficos da brasileira Verônica Santos, ás do balé. Da Argentina, chega "Bailarinas Incendiadas", baseado na pesquisa documental de Ignacio González.
CAIXA CULTURAL CURITIBA - Ali vai rolar riso com a comédia dramática "Atrás das Paredes", uma ironia com as práticas mais exóticas da intolerância. Há de haver gargalhada ainda em "Como um Palhaço - Like a Clown", que desconstrói a imagem mítica e ficcional doa arlequins circenses de nariz vermelho.
TEATRO PAIOL - Muita gente vai lembrar do caso imperdoável da execução do cachorro Orelha ao assistir ao memorável "O Motociclista no Globo da Morte", texto de Leonardo Netto, dirigido por Rodrigo Portella, em que o ator Eduardo Moscovis expõe a violência humana em monólogo inédito.
TEATRO BOM JESUS - É para lá que vai, diretamente de Juazeiro do Norte, no Ceará, a peça de cultura popular "Histórias de Teatro e Circo - Três Gerações de Arte Brincante", em que o grupo Carroça de Mamulengos, patrimônio artístico nacional, celebra seus 50 anos de cultura e vida.
MOSTRA FRINGE - A menina dos olhos de Curitiba não é um lugar específico... é ocupação. Como parte de sua programação gratuita e acessível a todos os públicos, essa seleção paralela mobiliza as franjas daquela cidade, ocupando praças, parques e ruas, com uma média anual de 300 espetáculos, produzidos por aproximadamente 1800 artistas e técnicos vindos de todos os estados do Brasil e de outros países, como Argentina, Peru, Chile e Bolívia, sendo aproximadamente 40% deles apresentados de forma gratuita para a população.
PEDREIRA PAULO LEMINSKI - Espaço dedicado ao movimento de humor Risorama, onde dínamos da piada como Nany People, Bruna Louise, Nando Viana, Rodrigo Marques, Fabiano Cambota, Marcelo Duque, Gio Lisboa, Teteu Severo e Chico Raiz farão da fala um instrumento de cócegas.