CRÍTICA / TEATRO / O AUTO DA COMPADECIDA: Releitura barroca

Por Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

O Grupo Maria Cutia, de Minas Gerais, apresenta uma adaptação eloquente, adicionando gracejos ao clássico com habilidade

Na metade do século passado, o paraibano Ariano Suassuna (1927-2014) imortalizou-se através de sua obra mais famosa, rompendo fronteiras brasileiras, com montagens nos Estados Unidos e na Europa, difundindo nordestinidade, cultura popular em extrema crítica social. A peripécias de Chicó e João Grilo ganharam telas em 2000 pelas mãos do diretor Guel Arraes, numa cinematografia de sucesso. Um dos textos mais populares do teatro moderno brasileiro, a comédia comunica-se perfeitamente com os dias presentes.

É nesse contexto que o Grupo Maria Cutia, de Belo Horizonte, apresenta "Auto da Compadecida", uma adaptação eloquente, adicionando novos gracejos no clássico com muita habilidade. O coletivo, que completa 20 anos, mistura palhaçaria, música, aproximando a narrativa do cenário político e social do Brasil contemporâneo.

Gabriel Vilela é sempre deslumbrante, tamanha a digital que o talentoso diretor impõe ao seu devaneio cênico. Valoriza o burlesco, investe em raízes circenses, amalgamando sua belíssima estética barroca, sem comprometer os arquétipos bem tramados pelo escritor. Carnavaliza a cena, inspira-se em universo brechtiano, determinando o jogo teatral.

O elenco é desigual, embora funcionem em conjunto. Destaca-se Polyana Horta, comediante de qualidade, numa composição jocosa, além das performances hilariantes de Leonardo Rocha, sábio na armação do seu João Grilo, e Mariana Arruda, que ilumina a cena na rapidez de seus improvisos. Hugo da Silva, em ótimo timing, deve cuidar da dicção. Há uma fragilidade em Dê Jota Torres, que compromete suas personagens. Marcelo Veronez e Thiago Queiroz não alcançam voos maiores.

Em perfeita adequação, carrancas e pinturas de arte revelam a cenografia do próprio diretor, que instaura textura, permitindo a passagem da luz certeira de Richard Zaira, com sombras apropriadas. Numa paleta predominantemente terrosa, em contraste com cores mais vibrantes, marcando uma leitura mais celestial, os figurinos extraordinários do encenador, apresentam sobreposições e mistura de superfícies: brocados, linhos, rendas, bordados, franjas e aplicações. Em algumas peças percebe-se um processo de envelhecimento, num desgaste proposital, criando aparência de uso. Os chapéus e adornos reforçam o caráter cômico das personagens. A direção musical de Babaya, Fernando Muzzi e Hugo da Silva é caprichosa, estabelecendo uma unidade vocal da trupe, além de valorizar humor e poesia com músicas de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Sergio Sampaio e Zeca Baleiro. Vale ressaltar a beleza visagística facial dos intérpretes.

No alto da sua mineiridade, o Grupo Maria Cutia, que trafega pelo teatro de rua, além de palcos tradicionais, resulta bem na condução de Gabriel Vilela, exibindo um espetáculo, esteticamente, repleto de teatralidade e que purifica a visão.

SERVIÇO

AUTO DA COMPADECIDA

Arena do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana)

Até 29/3, de quinta a sábado (20h) e domingos (18h)

Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia) e R$ 10 (associado Sesc)