O encontro como abismo
Espetpaculo 'Fera' faz do ataque de um crocodilo uma metáfora sobre fragilidade humana e tecnologia
Espetáculo 'Fera' faz do ataque de um crocodilo uma metáfora sobre fragilidade humana e tecnologia
Quando a filósofa australiana Val Plumwood sobreviveu a um ataque de crocodilo em um rio ela fez do epsódio uma reflexão profunda sobre a vulnerabilidade humana diante da natureza. Décadas depois, sua história ressurge em "Fera", espetáculo em cartaz no Teatro Poeirinha, no qual a atriz Carolina Ferman e a diretora Natasha Corbelino entregam uma experiência cênica radical sobre o encontro entre o humano e o selvagem, mediado pela tecnologia.
A inspiração chegou a Ferman de forma visceral. Lendo "Escute as Feras", livro em que a autora Natasha Martin relata seu próprio ataque de um urso, a atriz — então vivendo intensamente o puerpério e a relação simbiótica com sua filha recém-nascida — sentiu-se capturada por essas narrativas de alteridade extrema. "Essa história me tocou porque fala sobre vulnerabilidade extrema. Não é uma metáfora, é uma história real, é um testemunho de uma filósofa ambientalista que pensava a natureza e acabou tendo esse encontro cru, selvagem com um crocodilo", reflete Ferman. Foi então que descobriu "O Olho do Crocodilo", de Val Plumwood, ainda sem tradução no Brasil — a obra que se tornaria o coração de "Fera".
Ferman, atualmente em circulação na série HBO "Ângela Diniz: Assassinada e Condenada" no papel de Ione Manfredi, é atriz, produtora, professora e artista criadora formada pela CAL e PUC-Rio. Sua trajetória inclui indicação ao prêmio Cesgranrio como melhor atriz pela peça "Desalinho" e trabalhos autoriais como "Abas" e "Super Disponíveis". No audiovisual, além da série da HBO, participou de produções como "Adorável Psicose", "Os Homens são de Marte" e das novelas globais "Deus Salve o Rei" e "Nos Tempos do Imperador".
A peça investiga e dilata aquele instante suspenso entre vida e morte, quando a personagem atacada enfrenta o animal nos olhos e compreende sua própria fragilidade. Nesse espaço-tempo expandido, acontece o encontro entre personagem e atriz, entre relato e ação, entre lucidez e delírio. Ferman contracena com uma caixa de som que deixa de ser mero suporte técnico para se tornar personagem — ampliando a ideia de uma ação que acontece no "entre": o humano e o selvagem, a natureza e a máquina, a vida e a morte.
A provocação pela radicalidade veio de Natasha Corbelino, diretora, performer, autora e pesquisadora com mestrado em Artes da Cena pela UFRJ. "Desde o começo, Natasha falou que queria algum tipo de radicalidade na linguagem que dialogasse com a radicalidade que é ser mordida por um crocodilo", comenta Ferman sobre a direção.
"Me move demais inventar modos mais radicais de imaginação de futuros com o teatro. O convite da Carolina para dirigir a peça e escrever com ela a dramaturgia aconteceu assim: com um olho no abismo da morte e um olho na coragem de ser mulher criadora dos próprios mundos. Ou seja, um encantamento feroz! O encontro que a cena causa é precioso e, quando ele acontece interespécies, então, o mistério é pura magia!", destaca a encenadora.
A montagem opera em três registros simultâneos: selvagem, humana e tecnológica. Uma faixa de som gravada é emitida pela caixa por 55 minutos ininterruptos. Depois do prólogo, Ferman dá o "play" e precisa fazer a peça acontecer dentro deste tempo rigoroso. "Eu dou play e preciso me encaixar. Ela não para. É uma faixa ininterrupta. Então a peça tem um rigor técnico de partitura física, vocal e emocional, precisa caber ali", explica a atriz. A relação entre corpo humano e máquina fala do desejo de reconexão com o mundo natural, hoje mediado pela tecnologia — fronteiras cada vez mais diluídas entre o orgânico e o artificial.
"Nossa vida está atravessada o tempo inteiro pela tecnologia, e nisso tem afeto, tem comando e tem controle também. A máquina é um outro corpo com quem eu estabeleço um vínculo de escuta, de dependência, de confronto. É ao mesmo tempo uma libertação e um cárcere", comenta Ferman. A peça aborda temas urgentes: a crise ambiental, o protagonismo feminino nas artes, a relação entre corpo e tecnologia. E, para Ferman, há uma questão ética fundamental subjacente: "A forma como lidamos com a natureza é o que legitima todas as outras formas de opressão e dominação, tudo é um espelhamento dessa crença de superioridade. Como a gente propõe uma nova ética entre tecnologia e mundo natural? Porque é um caminho sem volta. Essa convivência híbrida, porosa, é um caminho sem volta. O espetáculo busca o elemento novo, essa nova ética".
SERVIÇO
FERA
Teatro Poeirinha (Rua São João Batista, 104 — Botafogo)
Até 22/4, terças e quartas (20h) | Ingressos: R$ 80 e R$ 40 (meia)