Metamorfose e libertação
'Mulher em Fuga', primeira adaptação brasileira das obras de Édouard Louis sobre a trajetória de sua mãe, estreia nesta quinta no Teatro Firjan Sesi Centro
'Mulher em Fuga', primeira adaptação brasileira das obras de Édouard Louis sobre a trajetória de sua mãe, estreia nesta quinta no Teatro Firjan Sesi Centro
Certas histórias só podem ser contadas quando alguém decide quebrar o silêncio. Monique Louis, mãe do escritor francês Édouard Louis, passou décadas sob o peso das engrenagens invisíveis que trituram mulheres da classe trabalhadora: um casamento marcado pela violência, o peso do trabalho exaustivo, a pobreza que não perdoa e a ausência de qualquer horizonte que não fosse a repetição do mesmo ciclo. Foi preciso que o filho transformasse essa trajetória em literatura para que Monique ocupasse o protagonismo de sua própria existência.
O espetáculo "Mulher em Fuga" chega aos palcos cariocas com dramaturgia de Pedro Kosovski que funde dois títulos do autor — "Lutas e Metamorfoses de uma Mulher" (2021) e "Monique se Liberta" (2024). Inez Viana assina a direção. Em cena, estão Malu Galli e Tiago Martelli, o idealizador do projeto.
Édouard Louis é uma das vozes mais contundentes da literatura europeia contemporânea. Nascido em uma família operária do norte da França, ele ficou conhecido por transformar a autobiografia em instrumento de análise política, expondo as estruturas de classe, gênero e violência que moldam corpos e destinos. "Em Lutas e Metamorfoses de uma Mulher", ele reconstrói a trajetória da mãe pelo olhar do filho que testemunhou — às vezes de longe, às vezes de perto demais — uma vida marcada pela humilhação sistemática e pelo esforço de romper com ela.
"A história da minha mãe é a história de uma vida roubada e, portanto, também a história de uma juventude roubada, como foi a vida e a juventude de muitas mulheres", diz o autor em entrevistas. "É por isso que me pareceu importante escrever este livro, rebelar-me contra isso."
Três anos depois, em "Monique se Liberta", a protagonista assume a palavra em primeira pessoa. Pela primeira vez, é ela quem narra seus medos, suas perdas, suas estratégias de sobrevivência e suas conquistas. O livro funciona como um contraponto ao relato do filho: se no primeiro volume Louis interpreta a mãe a partir de sua própria memória afetiva e política, no segundo é Monique quem reivindica a autoria de sua própria história — um ato de emancipação além da literatura.
Kosovski encontrou nessa duplicidade de vozes o fio condutor da dramaturgia. "Busquei a ação emocional da escrita autobiográfica de Louis, uma ação que rompe decisivamente com o estado de anestesia que muitas vezes marca existências em nossa sociedade", explica o dramaturgo. "Entre dívidas e reivindicações, algo do impossível desse encontro entre mãe e filho pronuncia imperativamente um chamado emocional: é urgente que se façam sentir as existências neste mundo, apesar desse mundo." O espetáculo não escolhe um ponto de vista em detrimento do outro; ao contrário, habita o espaço tenso e fértil entre os dois, evidenciando tanto o conflito quanto o afeto que estruturam essa relação.
Inez Viana, na direção, conduziu o processo com atenção às camadas simultâneas que o material exige: a intimidade da memória familiar, a dimensão política da violência de gênero e o peso simbólico de dar corpo e voz a uma mulher que o sistema insistiu em apagar. Para ela, ao colocar a mãe no centro da narrativa, Louis lança um grito contra o patriarcado e sua capacidade de naturalizar a opressão. "Através de sua ajuda para a terceira fuga de sua mãe, o filho tenta não só recuperar sua relação interrompida com ela, mas entende — e nós também entendemos — que a liberdade e o caminho não percorridos sempre poderão ser retomados, independentemente do tempo", diz a diretora.
Malu Galli habita Monique com a clareza de quem reconhece na personagem algo universal, ainda que profundamente específico. "Monique é uma mulher comum: dona de casa, mãe de cinco filhos. E, como toda mulher comum, Monique é uma mulher extraordinária", reflete a atriz. "Uma mulher com uma força gigantesca, um amor pela vida e uma coragem de leoa. Basta dar a ela a oportunidade de ser quem é para que todos possam comprovar isso. E, quando falamos de oportunidade, falamos de autonomia. E, quando falamos de autonomia, o dinheiro está sempre no centro." É essa tensão — entre o cotidiano e o extraordinário, entre a dependência e a autodeterminação — que Galli carrega ao longo do espetáculo.
"Na obra de Édouard Louis, encontrei uma narrativa que nos confronta com a coragem, a vulnerabilidade e a reinvenção de uma mulher que se recusa a desaparecer", afirma Thiago Martelli. "Esta adaptação é um gesto de cuidado, um ato político e uma homenagem a todas as mulheres que lutam para reconquistar suas próprias vozes."
SERVIÇO
MULHER EM FUGA
Teatro Firjan Sesi Centro (Av. Graça Aranha, 1)
De 12/3 a 26/4, às quintas e sextas-feiras (19h) e sábados e domingos (17h)*
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)
*Não haverá apresentações de 9 a 12 de abril — o espetáculo participa do Festival de Curitiba