Entre o delírio e a filosofia
Cia. dos Trópicos leva ao Ziembinski uma comédia sobre solidão, fé e uma planta que acredita ser Deus
Cia. dos Trópicos leva ao Ziembinski uma comédia sobre solidão, fé e uma planta que acredita ser Deus
Uma mulher é abandonada pelo marido. Sozinha em seu apartamento, começa a conversar com uma planta. A planta, por sua vez, passa a acreditar que é Deus. O ponto de partida de "A Sarça Ardente", novo espetáculo da Cia. dos Trópicos, é simples e desconcertante. Com texto e direção de João Santucci, a montagem chega ao Teatro Ziembinski, na Tijuca, a partir desta terça-feira (3).
No palco, uma árvore verdadeira divide o espaço com o elenco. Não como cenário, mas como personagem — viva, simbólica, desconcertante. As atrizes Patrícia Bello e Raquel Monteiro se revezam ao longo da encenação para vivenciar as três figuras da trama: a Mulher, a Planta e a Muda de Outra Planta. É nesse embaralhamento de identidades que realidade e delírio se confundem desde a primeira cena, convidando o público a adentrar num território sem qualquer certeza.
"O trunfo da peça está justamente nessa combinação entre absurdo e humanidade. O que começa como uma situação estranha e até cômica rapidamente se transforma em uma metáfora potente sobre solidão, abandono, culpa cristã, fé, delírio, trauma e a necessidade humana de projetar sentido quando tudo desmorona", explica Santucci.
A protagonista, reforça o diretor, não é uma figura idealizada. "Trata-se de uma mulher em estado de ruptura, atravessada por contradições, carências, culpa, desejo e ironia. A planta que se crê divina não é apenas um elemento fantástico, mas um espelho da própria protagonista e, em alguma medida, de uma sociedade que busca respostas absolutas em meio ao vazio existencial."
O espetáculo nasceu de uma performance: uma planta dublada por uma atriz. Ao longo de quase um ano de desenvolvimento, a companhia investigou formas de representar a psique e a corporalidade dessa figura híbrida — mulher-planta, planta-mulher —, explorando suas fronteiras simbólicas, afetivas e existenciais.
O resultado, acrescenta Santucci, dialoga com o cinema de Pedro Almodóvar, especialmente na construção de personagens femininas em estado de excesso emocional e no uso do melodrama como elemento narrativo. Ao mesmo tempo, a peça bebe na tradição das novelas brasileiras ao tratar temas complexos de forma acessível. Aqui o drama convive com o riso e o cotidiano é atravessado pelo extraordinário.
Ausência, vazio existencial, fé, memória, trauma, feminino, morte — os temas de "A Sarça Ardente" pesam. Mas pitadas de humor, melodrama e ironia atravessam a encenação de ponta a ponta. "É uma peça que provoca riso e desconforto, reflexão e identificação. Um teatro que se explica rápido, mas permanece ecoando por muito tempo depois que a luz se apaga", define o diretor.
SERVIÇO
A SARÇA ARDENTE
Teatro Ziembinski (Av. Heitor Beltrão, s/nº - Tijuca. Em frente à estação de metrô São Francisco Xavier)
De 3/3 a 1/4, às terças e quartas (20h)
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia-entrada ou Lista Amiga)
