Fora da fazenda
Espetáculo 'Desfazenda - Me Enterrem Fora Desse Lugar', inspirado em história real de crianças escravizadas décadas após a abolição, traz reflexão urgente sobre necropolítica e corpos negros no Brasil
Em 1930, cerca de cinquenta crianças negras foram retiradas de um orfanato no Rio de Janeiro e cresceram escravizadas numa fazenda no interior de São Paulo. Décadas depois da assinatura da Lei Áurea, o Brasil mantinha vivas as engrenagens da violência racial — não como resquício, mas como sistema. É a partir desse fato histórico, documentado no filme "Menino 23 — Infâncias Perdidas no Brasil", que o coletivo paulistano O Bonde criou "Desfazenda - Me Enterrem Fora Desse Lugar", espetáculo que chega ao Rio de Janeiro com estreia no Sesc Tijuca na quinta-feira (26), às 19h, e fica em cartaz até 22 de março.
Sem cair na reconstituição histórica, a montagem se apresenta como um exercício de fricção entre passado e presente, uma pergunta lançada ao espectador sobre o que, de fato, mudou. "Desfazenda" recusa tanto a vitimização quanto o silêncio e chega para incomodar e provocar o público.
Com direção de Roberta Estrela D'Alva, dramaturgia de Lucas Moura e direção musical de Dani Nega, o espetáculo aposta no minimalismo como estratégia dramatúrgica. Não há adereços de cena: quatro intérpretes, uma caixa preta, luz e som. O espaço vazio não é ausência — é possibilidade. "É um espetáculo que evoca uma energia muito densa. A luz revela, esconde, opina e constrói atmosferas. Já a música dá o pulso da narrativa. A ideia é que o espectador, em muitos momentos, tenha a sensação de estar diante de um quadro ou até mesmo de um filme acontecendo ao vivo", descreve o ator Filipe Celestino, também co-fundador do O Bonde.
A linguagem do espetáculo bebe do teatro hip-hop, do spoken word e das batalhas de poesia, tradições negras e periféricas que transformam a palavra em arma, em ritual, em denúncia. O ritmo não é ornamento — é estrutura. "Os beats acompanham os monólogos e diálogos e dão o pulso da narrativa. É o ritmo da palavra que conduz o espectador por essa experiência", explica Celestino. Essa escolha estética não é gratuita: ela conecta a história das crianças escravizadas de 1930 às vozes de artistas negros e periféricos que, hoje, ocupam o palco como ato político. O resultado é uma encenação que se distancia do teatro convencional sem abrir mão do rigor. "É um espetáculo incomum, que desperta curiosidade", resume o ator.
O título carrega múltiplas camadas de sentido. Ser enterrado fora desse lugar — embranquecido, hegemônico, aprisionador — é ao mesmo tempo desejo literal e metáfora de ruptura. "É sobre romper com estruturas. É sobre a possibilidade de existir com dignidade e garantir um encaminhamento digno e justo àqueles que tiveram suas vidas tiradas por um sistema cruel profundamente enraizado", reflete Celestino. A necropolítica — conceito do filósofo camaronês Achille Mbembe que descreve o poder de decidir quem vive e quem morre — atravessa a peça não como teoria acadêmica, mas como experiência encarnada, visível nos corpos em cena.
O espetáculo surgiu durante a pandemia e foi premiado pela APCA na categoria Melhor Espetáculo Virtual de 2021. Em sua versão presencial, acumulou público, crítica favorável e uma indicação ao Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia. Agora, a chegada ao Rio adiciona uma dimensão simbólica especialmente significativa: foi exatamente da capital carioca que as crianças da história real foram levadas para a fazenda paulista. "O Rio carrega uma rica herança cultural afro-brasileira, mas também foi um dos principais centros do tráfico de pessoas escravizadas. Apresentar o espetáculo aqui é também um gesto de ressignificação dessa história. Além disso, sempre foi um desejo do O Bonde estar no Rio. A gente sabe da potência artística da cidade e está muito ansioso para viver esse encontro, especialmente com as coletividades negras do teatro local", conta Filipe.
O Bonde existe desde 2017 e se define como coletivo de artistas negros e periféricos, oriundos de diferentes períodos da Escola Livre de Teatro de Santo André. O nome — referência aos ajuntamentos negros que historicamente se organizam para resistir — sintetiza a proposta do grupo: a palavra como ferramenta de acesso, denúncia e ampliação das discussões afro-diaspóricas.
SERVIÇO
DESFAZENDA - ME ENTERREM FORA DESSE LUGAR
Sesc Tijuca (Rua Conde de Bonfim, 770)
De 26/1 a 22/4, de quinta a sábado (19h) e domingos (18h)
Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia) e gratuito (PCG)
