Fafá de Belém revela um país chamado Amazônia
Musical se vale dos mitos amazônicos para contar trajetória da cantora que quebrou padrões e se tornou voz de um Brasil que o Brasil não conhecia
Ela conquistou um país inteiro nos anos 1970 com seu carisma, um timbre gostoso e uma gargalhada inconfundível. Maria de Fátima Palha de Figueiredo, ou simplesmente Fafá de Belém, faz merecer o musical em cartaz No Teatro Riachuelo, idealizado e dirigido por Jô Santana, um craque dos musicais. A artista quebrou padrões de comportamento ao trazer com sua música toda a riquíssima cultura da região Norte do país.
Desenvolvida por Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, a dramaturgia é contada em três planos temporais que, no início da peça, se estabelecem de forma independente e, a partir de determinado momento, se atravessam e se completam. O primeiro plano se passa no presente, durante a gravação de um documentário em homenagem aos 50 anos de carreira da artista.
A partir de suas lembranças, surgem os demais planos: o segundo representa a memória da infância em uma Belém lírica, entre mitos e lendas dos povos da floresta — indígenas, ribeirinhos, marajoaras —, enquanto o terceiro mostra a construção da carreira da cantora, de Belém para o mundo. Três atrizes interpretarão Fafá nas fases da infância, juventude e maturidade, compondo a trajetória de Fafá-menina, Fafá-cantora e Fafá de Belém, interpretada por Lucinha Lins. Ecologia, meio ambiente e MPB são ingredientes que compõem o espetáculo.
Foi através da televisão, com apenas 18 anos, que aquela menina da floresta entrou nas casas de todo o país com seu sorriso aberto, suas curvas, seu jeito espontâneo e livre de viver. A canção era "Filho da Bahia", de Walter Queiroz, que fazia parte da trilha sonora da novela "Gabriela", da TV Globo. Segundo o jornalista Arthur da Távola, foi através da voz da jovem Fafá, pela tela da TV, que ele pôde descobrir o Brasil profundo, amazônico, tão pouco conhecido, até então, pelos brasileiros das grandes capitais. A partir de então, a cantora coleciona hits em diversas trilhas de novelas, somando mais de 70 canções.
A partir de 1979, Fafá se tornou porta-voz na luta pelos direitos da mulher, cantando músicas com viés mais feminista, como "Bilhete", "Sob medida" e "Que me venha esse homem". Foi a musa da campanha Diretas Já, viajando país afora e reivindicando o direito de os brasileiros votarem para presidente. A canção "Menestrel das Alagoas" virou o hino do movimento e, de fato, Fafá se aproximou mais do povo. Como consequência, passou a gravar um repertório mais popular, com sucessos como "Abandonada" e "Nuvem de lágrimas", o que resultou em um aumento significativo na vendagem de seus discos.
Falar de Fafá é também falar do Círio de Nazaré, maior evento religioso do mundo, misturando a fé católica à fé cabocla, religião com indigenismo. É cantar para os três papas que visitaram o Brasil e também cantar mambos, cúmbias, calipsos e carimbós, ritmos que formaram sua identidade musical paraense. Seguindo o fluxo dos rios, a voz que veio da floresta desaguou em Portugal, onde reina absoluta entre fados e pimbas, tornando-se cidadã portuguesa.
Com seu temperamento rasgado e passional, Fafá seduziu a comunidade LGBTQIA , criando canais de diálogo com as novas gerações chegando a estourar mundialmente com o remix da canção "Emoriô" (Gilberto Gil e João Donato), feito pela jovem dupla francesa Trinix. A faixa virou hit nas baladas brasileiras e também nas pistas da Europa.
Fafá rodou o mundo sem jamais se desconectar das raízes amazônicas. A mestiçagem e a miscigenação de povos, etnias e elementos culturais e religiosos são parte importante de sua obra musical e de sua visão de mundo.
SERVIÇO
FAFÁ DE BELÉM, O MUSICAL
Teatro Riachuelo Rio (Rua do Passeio, xx - Cinelândia0
Até 8/3, quintas e sextas-feiras (20h) | sábados e domingos (17h) | Ingressos entre R$ 40 e R$ 200
