Cartas ao futuro
Tatá Oliveira apresenta monólogo que investiga heranças afetivas entre gerações e questiona padrões de masculinidade e paternidade por meio do teatro de objetos
Tatá Oliveira apresenta monólogo que investiga heranças afetivas entre gerações e questiona padrões de masculinidade e paternidade por meio do teatro de objetos
O espetáculo "Uma Carta para Meus Netos", em cartaz no Sesc Tijuca, parte de um procedimento dramatúrgico ao mesmo tempo simples e complexo: um homem escreve uma carta endereçada a netos que ainda não nasceram. Nesse exercício de imaginação e memória, o artista Tatá Oliveira — que idealizou, escreveu e interpreta o solo — percorre sua própria história familiar, revisitando modelos afetivos herdados de pais e avôs, questionando padrões de comportamento e investigando o que se repete, o que se transforma e o que se pode, conscientemente, escolher transmitir ou interromper. Com direção de Débora Salem, a montagem combina teatro de objetos, bonecos e performance para construir uma narrativa íntima sobre masculinidade, paternidade e escuta emocional.
Integrante há três décadas da Artesanal Cia. de Teatro, Tatá estreia aqui seu primeiro monólogo, obra que sintetiza uma pesquisa artística amadurecida ao longo de sua trajetória no teatro e no audiovisual. A linguagem cênica adotada borra deliberadamente as fronteiras entre autobiografia e ficção, criando um território onde memórias reais e situações inventadas se entrelaçam. Os brinquedos utilizados em cena funcionam como arquétipos emocionais, símbolos reconhecíveis da infância que revelam tensões, expectativas e fragilidades nas dinâmicas familiares. Segundo o ator, "entre lembranças, invenções e objetos carregados de memória, o palco se transforma em território de reflexão sobre as transformações geracionais e os desafios de educar, amar e escutar em tempos de mudança".
A dramaturgia não oferece respostas prontas nem julgamentos morais sobre as figuras paternas e avós que atravessam a narrativa. Ao contrário, propõe perguntas e abre espaço para que o público reconheça suas próprias heranças afetivas nas situações apresentadas. A encenação aposta na sutileza para abordar questões urgentes como a reprodução inconsciente de padrões familiares, a dificuldade masculina de expressar afeto e vulnerabilidade, e os silêncios que atravessam gerações. "O avô que aconselha, o pai que silencia, o filho que não compreende — todos coexistem em um mesmo corpo narrativo, revelando que o conflito entre gerações é também um espaço possível de aprendizado e transformação", reflete Tatá.
A estrutura dramatúrgica, dividida em prólogo e epílogo, permite que o espetáculo circule por diferentes temporalidades: o presente da escrita da carta, o passado das lembranças familiares e o futuro imaginado dos netos ainda não nascidos. Essa construção temporal fluida é reforçada pela direção de movimento de Paulo Mazzoni e pela preparação em formas animadas de Marise Nogueira, que imprimem ao corpo do ator e aos objetos manipulados uma qualidade poética que amplia os sentidos do texto. O desenho de luz de Rodrigo Belay e o videomapping de Carolina Godinho completam o universo cênico, criando atmosferas que transitam entre o íntimo e o onírico.
Embora a montagem seja classificada para maiores de 16 anos e dialogue diretamente com o público adulto, as questões que coloca reverberam em todas as gerações. Ao falar de paternidade, o espetáculo fala também de filiação; ao questionar a masculinidade, interroga os modos como homens e mulheres são educados para sentir e expressar afeto; ao revisitar o passado familiar, convida a pensar sobre que futuro é possível construir a partir do reconhecimento dessas heranças. Mais do que uma peça sobre relações familiares, "Uma Carta para Meus Netos" é uma reflexão sobre o que transmitimos — querendo ou não — e sobre a possibilidade de transformar, pelo exercício da consciência e da escuta, aquilo que recebemos em algo novo.
SERVIÇO
UMA CARTA PARA MEUS NETOS
Teatro 2 do Sesc Tijuca (Rua Barão de Mesquita, 539)
Até 8/2, de quinta a sábado (19h) e domingo (18h)
Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia) R$ 21 (associado Sesc) e grátis (PCG)
