CRÍTICA / TEATRO: HADDADE BORGHI CANTAM O TEATRO, LIVRES EM CENA: : Vidas poéticas no teatro

Por por Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

Renato Borghi e Amir Haddad: amizade e cumplicidade artística desde os tempos do Teatro Oficina

Uma cortina desprende-se do teto desvelando a história do teatro brasileiro e daí em diante a emoção é evocada por tudo que se apresenta neste projeto antológico de Eduardo Barata, criador de um texto emocionante, ao lado de Elaine Moreira, com pesquisa apurada de Claudia Chaves. É um deleite presenciar a história de dois ícones das artes cênicas: Amir Haddad e Renato Borghi, haja vista a tamanha relevância destes mestres da cena.

O destino encarregou-se de algumas coincidências revelando-nos que o grande ator Renato Borghi e os talentosos diretores Amir Haddad e José Celso Martinez Corrêa nasceram no mesmo ano de 1937, todos fundadores do fabuloso Teatro Oficina. Naturalmente o diretor paulista José Celso estaria em cena, mas sua importância pujante conduziu a delicadeza de Barata para que ele pudesse estar ali, vanguardalizando. Há uma afetividade cênica transbordante, numa poética de que a vida real e a vida teatral tornam-se uma única. A narrativa inspira-se em circo, ópera, artes visuais, carnaval, além de fazer um recorte da política nacional, da era Vargas, passando pela presidência de Costa e Silva, onde o AI-5 institucionalizou-se, fomentando a prisão, tortura, perseguição de artistas no país.

A memória impõe-se e leva-nos a passear por obras, pelas quais o teatro nacional fortificou-se e citações à inúmeros outros mestres são recordadas: Bertolt Brecht, Gianfrancesco Guarnieri, Oswald Andrade, entre outros.

A direção de Barata cria uma liberdade cênica, pela qual a dramaticidade resplandece. É como se um cortejo abarcasse novas possibilidades a cada dia, favorecendo para que a realidade vá conquistando contornos teatrais. Tudo isso amparado por uma direção de movimento de Marina Salomon, em que a plateia é parte do espetáculo.

Os atores Débora Duboc, Duda Barata, Elcio Nogueira Seixas e Máximo Cutrim estruturam uma rede segura para que Haddad e Borghi possam transitar por seus relatos sem perderem o fio da meada, numa condução comovente. Ananda Gusmão brilha com sua voz límpida, além dos artistas circenses André Lopez, Gabriel Bezerra, Gustavo Garcia, Lenita Magalhães, Luiza Brito, Margarida Tose, Nathalia Cantarino, que compõem a beleza da atração.

É tocante a direção musical do Trio Júlio, por vezes cantando e tocando ao vivo. Corroborando para que a memória seja preservada, a trilha presenteia-nos com canções conhecidas. Ao cantarem "Roda Viva", de Chico Buarque, dá um nó na garganta, como se o passado atravessasse nossos corações. Rostand Albuquerque e Barbara Quadros expõem tronos, auxiliando a locomoção, além de revelarem fotos de artistas, pelos quais o teatro abrilhantou-se. Rute Alves colore o elenco, entraja os protagonistas com um manto e uma coroa, para que tenhamos certeza de estarmos diante de monarcas da cena. A luz de Rogério Medeiros ambienta a arena com delicadeza. Belo e cativante!

SERVIÇO

HADDAD E BORGHI CANTAM O TEATRO, LIVRES EM CENA

Teatro de Arena Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)

Até 1/2, sexta e sábado (20h) e domingo (18h)

Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia) e R$ 10 (associado Sesc)