Vestida ou nua, a cidade se revela
No último fim de semana, como de costume, fui aos ensaios técnicos das escolas de samba da Série Ouro, na Marquês de Sapucaí. Como sempre, havia ali o Rio em estado bruto: arquibancadas com pessoas de todo lugar, vendedores ambulantes, famílias inteiras, militância do samba, descaso do poder público; gente que vai pela música, gente que vai pela festa, gente que vai simplesmente porque aquilo também é cidade. Mas uma coisa, em especial, me chamou a atenção: o enredo e o samba da Unidos do Porto da Pedra.
A escola resolveu falar de prostituição. Não como escândalo. Não como provocação fácil. Não como fetiche carnavalesco. Mas, sim, como um tema social, histórico e urbano.
A prostituição acompanha o Rio desde que a cidade virou capital do Império e centro político do país. Cresceu junto com os portos, com a boemia, com a noite, com a desigualdade. Sempre esteve ali, mesmo quando fingimos não ver. O Rio sempre teve uma geografia do desejo e uma cartografia do preconceito: zonas iluminadas, zonas empurradas para a sombra. A prostituição nunca foi exceção; foi regra silenciosa, parte estrutural da vida urbana.
A Vila Mimosa é apenas o símbolo mais conhecido dessa história. Já esteve no Centro, foi deslocada pelas reformas urbanas e hoje segue funcionando na região da Praça da Bandeira como território de trabalho, lazer popular, circulação e sobrevivência. Um espaço que incomoda porque existe, e existe apesar do moralismo. O problema nunca foi a prostituição. O problema sempre foi o olhar lançado sobre ela. Um olhar seletivo, hipócrita e profundamente confortável para quem julga de longe.
Curiosamente, quando se observa a história política brasileira, esse pudor desaparece. O jornalista Sílvio Barsetti mostra isso em "O outro lado do poder", ao narrar a política nacional pela ótica das prostitutas. Bordéis e cabarés aparecem como espaços frequentados por figuras centrais da República. O poder sempre esteve ali. Apenas preferiu o conveniente silêncio.
O corpo que a sociedade condena é o mesmo que o poder consome sem constrangimento. Talvez por isso o samba da Porto da Pedra seja tão incômodo. Ele não fala dessas mulheres como objeto, mas como sujeito. Quando canta "Dama do luar e cabaré / Quem ousa enfrentar a força da mulher?", não faz poesia vazia. Afirma existência e resistência.
Não há romantização da dor. Prostituição não é glamour: é trabalho precarizado, risco, violência e ausência do Estado. Mas também é estratégia de sobrevivência numa cidade desigual. Economia informal sustentando famílias inteiras. Vida real, sem verniz.
O carnaval, grande que é, funciona como crônica coletiva. Lê a cidade melhor do que muito discurso oficial. E quando o samba diz "Dona de mim, vestida ou nua, o preço da vida, quem sabe sou eu", não pede aplauso. Exige escuta, atenção.
O samba entendeu. A Porto da Pedra entendeu. A cidade - ou pelo menos boa parte dela -, como sempre, finge surpresa.
