Buscando sentido no caos
Comédia dramática 'O Formigueiro' retorna aos palcos cariocas após temporada esgotada
Comédia dramática 'O Formigueiro' retorna aos palcos cariocas após temporada esgotada
A doença de Alzheimer não escolhe apenas um corpo para habitar. Quando se instala, transforma radicalmente toda uma estrutura familiar, seja pela redistribuição de papéis e hierarquias seja por expor feridas mal cicatrizadas. É dessa premissa que parte Thiago Marinho para construir "O Formigueiro", espetáculo que acaba de iniciar temporada no Teatro Firjan Sesi Centro, após esgotar os ingressos da primeira temporada no Teatro Gláucio Gill.
A montagem não é sobre a enfermidade que só no Brasil atinge mais de 2 milhões de pessoas (3,6% dos casos mundiais, segundo dados do Monistério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde (OMS). Trata dos estilhaços que ela provoca nas relações de quem cuida, de quem assiste, de quem precisa se reinventar diante do apagamento progressivo de um ente querido, no caso a matriarca de uma família.
Escrita e dirigida por Marinho, com supervisão de direção de João Fonseca e produção geral de Lucas Drummond, a montagem nasceu de uma experiência íntima do autor, que perdeu a avó em 2017 depois de acompanhá-la por dez anos convivendo com o Alzheimer. Mas o dramaturgo evitou o caminho mais óbvio do relato autobiográfico.
"A peça não é sobre a minha avó ou sobre alguém doente, mas sobre como os cuidadores mudam e os papéis dentro da família também vão mudando", explica Marinho. O que poderia resultar num drama pesado ganha, nas mãos do diretor, uma rara combinação de humor ácido e melancolia. "Não é pesado o tempo todo, existe muito humor na dor e no desespero. É mais engraçado do que triste", garante o dramaturgo e encenador.
A ação transcorre num único dia, durante os preparativos para o almoço de aniversário de Gilda, a mãe que já não reconhece plenamente os filhos. Victor, Joana e Luiz - interpretados por Lucas Drummond, Roberta Brisson e Rodrigo Fagundes - se reencontram nessa data protocolar, carregando cada um suas frustrações, ressentimentos e a exaustão de quem vive entre o luto antecipado e a obrigação de seguir em frente. A tensão latente entre os irmãos ganha um ingrediente explosivo com a chegada inesperada de Cláudio Márcio, vivido por Diego Abreu, cunhado envolto num escândalo de corrupção e foragido da polícia. O que poderia ser apenas mais um aniversário burocrático se transforma num acerto de contas com o passado, onde traumas antigos emergem e um segredo guardado há décadas vem à tona.
O título da peça remete ao formigueiro, espaço onde a rainha mantém a ordem, determina funções, garante a coesão do grupo. Quando ela falha, o caos se instala e as formigas perdem o rumo até que uma nova liderança se estabeleça. Nas famílias, o processo não é diferente: quando a figura central enfraquece, os filhos precisam renegociar seus lugares, assumir responsabilidades que antes não eram suas, enfrentar rivalidades que estavam apenas adormecidas.
Thiago Marinho costura essas questões numa dramaturgia que não poupa os personagens - nem o público. "A peça se passa em uma cena única em que as situações vão degringolando", conta o diretor, apontando para uma construção dramatúrgica que privilegia a intensidade crescente, o desconforto que se acumula até o ponto de ruptura.
Lucas Drummond, que além de atuar assina a produção geral ao lado de Marinho, destaca a densidade dos personagens como um dos principais atrativos do texto. A parceria entre os dois vem de longas datas: juntos idealizaram e produziram "Tudo o que há flora" e escreveram, produziram e protagonizaram a peça infantojuvenil "O Pescador e a Estrela". Desta vez, Drummond encontrou em "O Formigueiro" um desafio de outra natureza. "O texto me encantou desde a primeira leitura. É o tipo de peça que faz brilhar os olhos de qualquer ator. Personagens bem escritos, profundos e humanos; uma dramaturgia surpreendente que transita entre o humor e o drama; e na temática, a união das relações familiares, uma questão universal, com o Alzheimer, a doença da contemporaneidade e que merece o olhar atento e delicado que a peça propõe", afirma o ator.
Ao abordar o Alzheimer pelo ângulo dos cuidadores e não do doente, Marinho toca em questões globais: o envelhecimento da população, a solidão dos idosos, a culpa dos filhos divididos entre a vida profissional e o cuidado com os pais, a mercantilização do afeto quando a família terceiriza o cuidado.
Mas o texto não cai na armadilha do didatismo ou da autoajuda disfarçada de teatro. Os personagens são falhos, egoístas, vulneráveis - reconhecíveis justamente porque não são heróis, apenas pessoas tentando sobreviver a uma situação que ninguém escolhe viver. A peça não oferece respostas fáceis nem redenções simplistas. Apenas o retrato honesto de uma família em desintegração, buscando sentido no caos.
SERVIÇO
O FORMIGUEIRO
Teatro Firjan Sesi Centro (Av. Graça Aranha, 1, Centro)
Até 4/2, de segunda a quarta (19h)
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)
