Entre o afeto e o abate

Monólogo 'A Hora do Boi' explora dilema moral vivido por capataz que se afeiçoa ao animal que deveria sacrificar

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Em atuação de grande entrega física, Vandré Silveira dá vida ao capataz e ao boi que ele precisa sacrificar em 'A Hora do Boi'

Monólogo 'A Hora do Boi' explora dilema moral vivido por capataz que se afeiçoa ao animal que deveria sacrificar

Um boi da raça Nelore que foge de uma feira de agronegócios em Salvador e é encontrado cinco dias depois nadando no mar da praia de Stella Mares. A cena inusitada, registrada pelo jornal "A Tarde" em novembro de 2018, quando banhistas tentavam em vão direcionar o animal de volta à areia enquanto ele enfrentava as ondas, serviu de ponto de partida para o monólogo "A Hora do Boi", que retorna ao Rio em sua quarta temporada a partir desta terça-feira (13) no Centro Cultural Justiça Federal.

A partir desse episódio real, a dramaturga Daniela Pereira de Carvalho teceu uma narrativa em torno de um vículo improvável entre Seu Francisco, capataz e tratador de matadouro, e Chico, o boi nascido e criado sob seus cuidados. A trama, com astuação de Vandré Silveira e direção de André Paes Leme, coloca em confronto a rotina automatizada do trabalhador - que abateu centenas de cabeças de gado ao longo da vida sem questionamento - e a relação afetiva que se estabelece com este animal específico. O dilema se intensifica quando se aproxima o momento do abate de Chico, única criatura com a qual Francisco estabeleceu um vínculo genuíno.

A construção dramática dialoga remete aos escritos de São Francisco de Assis sobre a natureza e os seres vivos. O santo italiano do século 12 enxergava todos os seres como igualmente importantes e defendia que ninguém é suficientemente perfeito que não possa aprender com o outro, nem totalmente destituído de valores que não possa ensinar algo ao seu irmão. Essa perspectiva atravessa a montagem num questionamento das "hierarquias" entre espécies e a objetificação dos animais nos sistemas de produção desenvolvidos pela raça humana.

Vandré explica que o espetáculo busca, a partir dessa relação entre homem e animal, trazer reflexões e uma possível mudança nas ações cotidianas em prol de maior sintonia, respeito e empatia entre todos os seres. "É muito importante e urgente refletirmos sobre nossa relação com os seres humanos, nossos iguais, mas também com os outros seres que habitam o planeta. Inclusive repensarmos a nossa forma de consumo tão predatória dos recursos naturais. Precisamos nos enxergar como parte do todo, como a natureza, ampliarmos o olhar para a coletividade, para a empatia e para o afeto. O amor é a força mais poderosa do universo", argumenta.

No palco, os dois personagens - Seu Francisco e Chico - compartilham uma agonia: enquanto o trabalhador manso e submisso se vê pela primeira vez diante da impossibilidade de cumprir uma ordem dos patrões, o boi vive a condição do condenado no corredor da morte, depositando no laço de afeto com seu algoz as esperanças de salvação. A performance de Vandré transita nessas duas situações.

Desde sua estreia em janeiro de 2023 no teatro Poeirinha, "A Hora do Boi" acumulou reconhecimento na cena teatral carioca. O espetáculo cumpriu temporada no Teatro Municipal Sergio Porto e recebeu indicações ao 34º Prêmio Shell na categoria Figurino e ao 18º Prêmio APTR pela Direção de Movimento.

Para Vandré, a possibilidade de retomar o espetáculo periodicamente traz ganhos ao trabalho. "É muito bom poder revisitar um espetáculo de tempos em tempos. Ter a possibilidade de realizar uma nova temporada traz novas descobertas e uma maior apropriação da história contada", afirma, destacando que a resposta das plateias ao longo das temporadas revela a urgência das questões levantadas pela peça. Segundo ele, é preciso ampliar o olhar para a coletividade, a empatia e o afeto, enxergando-se como parte de um todo que inclui a natureza.

SERVIÇO

A HORA DO BOI

CCFF (Av. Rio Branco, 241 - Centro)

De 13/1 a 11/2, terças e quartas (19h)

Ingressos: R$ 50 e R$ 25 (meia)