Flávio Marinho: 'O mais importante de tudoé o prestígio do público'
Quem disser que o teatro faz milagres, não está fazendo ficção, conforme atesta o depoimento do dramaturgo Flávio Marinho, ao celebrar o regresso de seu blockbuster cênico "Não Me Entrego, Não!", com Othon bastos, à ribalta. Em cartaz no Teatro Vanucci, a peça provou que as artes cênicas mantiveram seu equilíbrio industrial num mundo pós-pandemia. É um momento de produção em massa para Flávio, que tem traduções e peças inéditas para entregar ao palco daqui até dezembro.
"Estou completando 39 anos de carreira, mas se contar meus anos dedicados ao jornalismo teatral, são 53. Publiquei 26 livros. Lancei cerca de 30 peças e mais de 50 traduções. Passei por uma meia dúzia de séries televisivas e quatro novelas como colaborador", diz o autor e diretor, que nasceu na Rua Pompeu Loureiro há 70 anos. "Sou copacabanense de raiz, embora tenha me mudado recentemente para Ipanema", conta.
Sua casa ainda não está arrumada para receber os amigos com os empadões deliciosos com que mima toda a gente que o admira, mas ele arrumou tempo de responder essa entrevista do Correio da Manhã.
Quantas apresentações de "Não Me Entrego, Não!" vocês fizeram desde a primeira abertura do pano e o que você aprendeu de mais precioso sobre o processo de produção de uma peça de tanto prestígio, na troca com Othon Bastos?
Flávio Marinho - "Não Me Entrego, Não!" estreou há um ano e sete meses no Vanucci e está de volta no mesmo teatro para uma temporada de verão. Já tem mais de 200 apresentações e quase 100 mil espectadores. O mais precioso em termos de produção que aprendi foi que o mais importante de tudo é o prestígio do público. Estramos sem patrocínio algum, mas sobrevivemos de bilheteria durante nove meses. Foi fenômeno de público desde o início. Foi o público que manteve o espetáculo em cartaz. Depois, com o sucesso, surgiu a Transpetro, que é nossa atual patrocinadora oficial, mas os patrocinadores morais foram os espectadores. Eles foram nossos captadores. Com o Othon, a troca foi intensa e afetiva. É meu amigo há cerca de 50 anos, é muito dócil à direção e, como é um ator profundamente intuitivo, ele mantém uma energia que sustenta a vitalidade do espetáculo. Nunca faz apenas na técnica.
Quais são seus próximos projetos e o que podemos esperar da sua carreira para 2026?
Minha vida virou uma loucura por causa deste êxito com o Othon. Todo mundo passou a querer trabalhar comigo. Tive que aprender a dizer "não", pois 2026 está lotado. Estou terminando uma tradução de uma excelente peça espanhola, "# Malditos 16", que Ricardo Waddington vai dirigir em São Paulo. Também vou traduzir uma extraordinária peça americana para a Louise Cardoso, mas ainda não posso revelar o título. Estou escrevendo uma peça que também vou dirigir e produzir, chamada "Víboras", com Marcos Breda, Aloísio de Abreu, Alice Borges e Felipe Abib. Essa estreia no Vanucci em outubro. Estou escrevendo outra, cujos ensaios começam em novembro. Vou dirigir Miguel Falabella. Louise Cardoso, Luciana Braga e Rômulo Estrela. E mais não digo...
Nesse seu torvelinho de sucessos, de que maneira você percebe a produção teatral hoje no Rio, e em todo o país, em relação à frequência de plateias? O que mudou na economia das artes cênicas da pandemia para cá?
O público voltou aos teatros com uma fome de espetáculos ao vivo. Durante a pandemia, por meio dos streamings, o cinema manteve-se vivo, mas o teatro tem uma troca de energia que o streaming não cobre. Por isso, estamos com tantos sucessos em cartaz. O povo tá matando a saudade do teatro.
Voltando a seu convívio em cena com Othon Bastos, qual foi o episódio mais emocionante com ele, no palco, desde o início da primeira temporada (aliás, quando foi mesmo)?
Flávio Marinho: Difícil dizer qual o momento MAIS emocionante da trajetória de "Não Me Entrego, Não!". Foram vários. O espetáculo em sua cidade natal, Tucano. A sua volta ao João Caetano onde ele apresentou os maiores êxitos da sua carreira.... teve de um tudo. Até um cadeirante saiu andando do teatro tomado pela força vital do Othon. Foram muitas emoções desde junho de 2025, quando o espetáculo estreou.
