Fala, figurante!

Comédia de Wendell Bendelack e Rafael Primot mostra a busca por visibilidade daqueles que vivem à margem dos holofotes

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Em 'Os Figurantes...' cinco atores calejados dão corpo e voz a aspirantes à fama que, verdade, estão em busca de visibilidade e reconhecimento

Comédia de Wendell Bendelack e Rafael Primot mostra a busca por visibilidade daqueles que vivem à margem dos holofotes

A cena é comum nos sets de filmagem e nos palcos: dezenas de pessoas aguardam pacientemente sua vez, torcem por uma fala, disputam uma participação especial. Foi justamente ao presenciar a frustração de um figurante que perdeu uma oportunidade para outro ator que Carol Cezar encontrou o mote para "Os Figurantes… E Depois?", comédia que estreia nesta sexta-feira (9) no Teatro Laura Alvim, em Ipanema. "Ali eu entendi que existia uma peça sobre o desejo de ser visto — e sobre o impacto quando isso não acontece", conta a atriz, que além de integrar o elenco, idealizou e produziu o espetáculo.

Com texto de Wendell Bendelack e Rafael Primot, além da colaboração de Andrea Batitucci e Cleomácio Inácio, a montagem nasceu de uma pesquisa intensa sobre roteiros e histórias reais do universo da figuração. Bendelack, que também assina a direção, estruturou a dramaturgia em formato de esquetes interligadas que formam um mosaico sobre a vida nos bastidores. O resultado é um espetáculo de ritmo ágil que transita entre o humor e a reflexão, utilizando o que Carol define como "deboche carinhoso" para iluminar personagens que costumam ficar nas sombras.

Além de Carol Cezar, estão em cena Bia Guedes, Hugo Germano, Rodrigo Fagundes e Tati Infante que, juntos, dão corpo e voz a situações que extrapolam o universo artístico para tocar questões sobre trabalho, precariedade e a luta diária por reconhecimento.

Segundo Carol, a identificação com o público acontece justamente porque a montagem lhe atinge diretamente. "O mais bonito de ver é que o público percebe rapidamente que 'Os Figurantes...' não é uma peça 'sobre o audiovisual'. É sobre qualquer pessoa tentando existir num mundo enorme. A peça transforma a experiência do coadjuvante em uma pergunta universal: quantas vezes você já se sentiu figurante da sua própria vida? No trabalho, na família, numa relação amorosa, numa cidade que engole a gente? Os personagens são espelhos, querem ser vistos, valorizados — ou ao menos lembrados. Por isso o público se reconhece, porque todo mundo já batalhou por uma fala", argumenta.

Para a produtora e atriz, o uso do humor não visa à ridicularização, mas à ampliação do que há de humano nas situações retratadas. "Quando digo que escancaramos o ego, o improviso e a vulnerabilidade, não é para ridicularizar ninguém, é para mostrar que todos nós, de algum jeito, estamos tentando ser vistos, reconhecidos, lembrados. E isso é profundamente humano", defende.

Bia Guedes enxerga na peça um convite à leveza diante das cobranças cotidianas. "Ninguém é protagonista o tempo todo, e tudo bem. É o que a peça nos lembra. É sempre bom olhar a vida com menos cobrança e mais leveza! Entendendo que até nos momentos em que pareço estar só 'figurando', eu continuo fazendo parte do todo e isso também tem muito valor. Essa peça me faz pensar muito sobre aqueles momentos em que a gente se sente apagado, como se só estivesse 'de fundo' na própria vida. Mas tudo isso de um jeito leve e divertido! Com a direção do Wendell as cenas se constroem de um jeito dinâmico e milimetricamente pensado! E além de tudo isso, ainda podendo dividir palco com colegas de elenco tão talentosos!", diz.

Hugo Germano revela que busca não se deixar abalar por opiniões alheias na construção de seu espaço na arte. "Busco sempre ser o protagonista da minha vida e não depender da aprovação ou licença dos outros para agir, acredito que um artista tem que ter algo a dizer em cena, sem fugir da sua essência. O maior desafio é representar um figurante respeitando seus desejos e anseios. Esse espetáculo me faz pensar em todas as escolhas que tomo profissionalmente, nas minhas referências artísticas, o teatro me dá a possibilidade de colocar todas as minhas memórias em cena", reflete.

Tati Infante, que divide seu trabalho entre palco e redes sociais, reconhece no humor ácido da peça uma crítica pertinente sobre competição e visibilidade. "O humor de 'Os Figurantes...' é exatamente o tipo de comédia que eu amo, aquele humor ácido que a gente ri… e depois pensa, 'Meu Deus, sou eu!'. A peça mostra atores transformando um set de filmagem num verdadeiro ringue de UFC por uma fala e eu, como atriz e influenciadora, olho aquilo e penso, '...Gente, isso aqui é um documentário!'. O mais divertido é que a peça me lembra diariamente que a gente tem que ensaiar como se o holofote fosse chegar, mesmo quando na vida real ele está mais para luz de geladeira piscando. Porque se depender do barulho do mundo, da concorrência e das redes sociais, ninguém ouve nem o 'ação!'", brinca.

Rodrigo Fagundes, com carreira consolidada em teatro, TV e cinema, recorre às próprias memórias de início de trajetória para falar sobre o tema. "Me lembro de ter feito uma figuração no filme da Rosane Svartman, 'Como Ser Solteiro', quando estava no meu primeiro ano da CAL. Filmamos uma madrugada inteira. Eu estava tão feliz, tão artista, me sentindo um protagonista, mas estava ali apenas para passar com uma bandeja e servir uma água para a personagem na cena. Saí radiante. Quando fui assistir no cinema, tinha virado o garçom 'sem cabeça' que passa ao fundo. Fiquei tão arrasado, mas hoje, vendo tudo que conquistei, agradeço por esse choque de realidade que tive lá atrás, pois vamos aprendendo que nossa profissão tem muitos momentos onde sua vocação é testada. Transformo tudo em combustível, reclamo de vez em quando, mas sigo em frente", relembra.

SERVIÇO

OS FIGURANTES... E DEPOIS?

Casa de Cultura Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176, Ipanema)

De 9/1 a 8/2, sextas e sábados (20h) e domingos (19h)

Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)