Amor, identidade e marginalidade
CCBB Rio recebe 'las Choronas', montagem inclusiva que reúne três coletivos teaatrais de Belo Horizonte
CCBB Rio recebe 'las Choronas', montagem inclusiva que reúne três coletivos teaatrais de Belo Horizonte
Quando três coletivos teatrais de Belo Horizonte - Pigmalião Escultura que Mexe, Cia 5 Cabeças e Mulher que Bufa - decidem unir forças, o resultado é uma experiência cênica que desafia convenções e amplia fronteiras da acessibilidade no teatro brasileiro. "Las Choronas" estreia nesta quinta-feira (8) no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, trazendo uma proposta que incorpora a Libras como elemento central da dramaturgia.
Com direção e dramaturgia de Byron O'Neill, o espetáculo transita entre o surrealismo e o teatro do absurdo para abordar questões de amor, identidade, marginalidade e crítica política. A referência explícita ao cinema de David Lynch, especialmente "Mulholland Drive", e à obra de Samuel Beckett, como "Esperando Godot", não é mera citação estética. O diretor aponta que a peça busca criar "um palco onde a memória não é linear, onde o real e o onírico se entrelaçam, e onde a linguagem - ou a falta dela - se torna um ato político".
A sinopse da peça funciona como um manifesto poético que antecipa a atmosfera fragmentada da encenação: "Nothing to be done. Nada a fazer. Esto es una grabación. Não há banda! E assim mesmo escutamos o nada. Se quiserem ouvir um alfinete, ouçam! Um choro de bebê tocando cuíca... Ouçam, ouçam o som da cuíca tocada pelo bebê que chora. No hay nene! There is no baby! Apenas lágrimas e Las Choronas. Don't worry, this too shall pass. Mañana vai ser outro dia." A mistura de idiomas e a referência à ausência ecoam tanto Beckett quanto Lynch, criando uma atmosfera onde o que não se diz tem tanto peso quanto o que é explicitado.
A escolha da Libras como linguagem central da dramaturgia tira a linguagem de sinais de um lugar periférico nas montagens. "Las Choronas" a integra à própria estrutura narrativa, combinando-a com dança, música e manipulação de bonecos. "Essa escolha não é apenas inclusiva; é revolucionária", afirma O'Neill. "Estamos criando uma experiência sensorial completa que questiona as hierarquias entre as diferentes formas de comunicação humana." O resultado, segundo o diretor, é uma montagem que rompe com as barreiras do teatro convencional e dialoga com um público plural, incluindo pessoas surdas, ouvintes, falantes de Libras e não falantes.
"Las Choronas" remete tanto às "lloronas" - as carpideiras profissionais da cultura hispano-americana - quanto ao choro brasileiro, gênero musical tradicionalmente associado à melancolia e à resistência cultural. "O nome nasceu da fusão entre o português, o espanhol e a Libras, criando uma identidade híbrida que reflete a própria natureza do espetáculo", explica O'Neill. "São personagens que choram, que lamentam, mas que também resistem. O choro aqui é tanto lamento quanto celebração, tanto individual quanto coletivo."
A produção reúne um elenco de 14 artistas que transitam entre atuação, dança e música. A direção musical tem a assinatura de Dib Carneiro e Samira de Paula, enquanto Isis Madi assina a consultoria e direção de Libras, elemento fundamental para a coerência da proposta inclusiva.
Os coletivos Pigmalião Escultura que Mexe, Cia 5 Cabeças e Mulher que Bufa compartilham uma trajetória de experimentação cênica e pesquisa sobre linguagens teatrais não convencionais. A união em "Las Choronas" sintetiza dessas investigações.
SERVIÇO
LAS CHORONAS
CCBB Rio (Rua Primeiro de Março, 66 - Centro)
De 8/1 a 8/2, de quinta a sábado (19h) e domingos (18h)
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)
