CRÍTICA / TEATRO / A MANHÃ SEGUINTE: Comédia abrasileirada
O britânico Peter Quilter, de sucessos no Brasil, aporta no Clara Nunes, com tradução de Marta Metzler e ótima adaptação de Thereza Falcão, que aproxima o texto, coberta de sapiência, para nossa realidade. "A Manhã Sequinte" é uma comédia que apresenta uma família irresistível, em encontros inusitados. Kátia e Tomás amanhecem juntos, depois de uma noite sexualizada e uma paixão que se configura instantaneamente. A chegada da mãe de Kátia no quarto do casal vai criando situações embaraçosas e o clima vai ganhando espaço cômico com a chegada do irmão.
A dupla de diretoras, Bel Kutner e Thereza Falcão, acerta ao instaurar atmosferas, que corroboram com a leveza do texto de Peter/Thereza, armando temperaturas hilariantes, além de desordens sobre uma cama de casal, que parecem descortinar um palco sobre o outro. E permitem que o improviso possa abrilhantar as apresentações, já que têm em mãos um elenco afiado para isso.
Bruno Fagundes, que vem provando seu enorme talento, brilha ao dar vida à um homem tímido, acuado por aquela família destrambelhada. Depois de iluminar o palco do mesmo teatro, numa interpretação arrebatadora com sua "A Herança", o ator revela-se absolutamente seguro em outro gênero. Angela Rebello diverte, arrancando gargalhadas com sua personagem imprudente, emprestando sua técnica notável de atriz experiente. Gustavo Mendes, comediante por si só, desfruta de uma afetação, que o público compra desde que entra em cena. E Carol Castro, mesmo extremamente sincera, não acompanha a expressividade que os colegas aplicam ao espetáculo.
A produção é cercada por uma equipe técnica esmerada. O cenário burlesco de Nelo Marrese dialoga satisfatoriamente com a proposta cênica, apresentando um universo kitsch, como se quisesse parodiar Sherazade, com cobertor de onça/hiena e cortinas plissadas. O figurino de Mauro Leite é, no geral colorido, realçando prazer aos olhares, sobretudo ao depararmos com o vestido jocoso que a mãe de Kátia traja no dia do casamento. A luz de Paulo Denizot e Kelson Santos é dinâmica, sem se manter sempre aberta, auxiliando a desenvoltura da narrativa. A preparação corporal de Ruben Gabira é clara e eficaz na soltura dos intérpretes, como na performance de Gustavo Mendes, ao brincar com John Travolta, enquanto ouvimos "Night Fever", pérola bem selecionada pela acertada trilha de Marcelo Alonso Neves. "A Manhã Seguinte" cumpre com muito humor o seu papel!
SERVIÇO
A MANHÃ SEGUINTE
Teatro Clara Nunes (Rua Marquês de S. Vicente, 45 - Shopping da Gávea)
Até 12/10, sextas e sábados (20h) e domingos (19h) | Entre R$ 21 e R$ 140
