Por Cláudia Chaves
Especial para o Correio da Manhã
Desde muito pequena, na escola das irmãs que frequentou em Volta Redonda, Rafael Souza-Ribeiro, a quem todos chamam de Rafuda, fazia todos os teatrinhos festivos. Páscoa, Dia das Mães, aniversário da siderúrgica. Logo, Logo, as irmãs passaram a pedir para escrever e montar peças didáticas: Descobrimento do Brasil, Revolução de 1930. Aí nasceu o dramaturgo, o diretor e o autor. O teatro em pessoa.
Filho único até quase 6 anos, tinha a vida do menino do interior, do Sul Fluminense. A contação de histórias. A avó, a mães e as tias, ali no quintal, descascando as mexericas, comendo bolo de milho, iam relembrando os fatos, falando da vizinhança, todos transformados em personagens, na interpretação da avó. Vivendo em Volta Redonda, uma cidade hierarquizada dentro e fora da Companhia Siderúrgica Nacional, Rafuda entendeu de cara que havia um grupo que jogava carvão no forno (seu avô, seu pai) e o grupo que morava em Laranjal, o bairro chique, das mulheres que fumavam e que se esforçavam por uma culinária pseudo sofisticada como retratou em "Cerca Viva".
Na linha tradicional de um autor que procura seus personagens, Rafuda veio para o Rio, entrou na Faculdade de Letras, trocou para direção teatral na UFRJ. Além da formação teórica, fazia de um tudo para se sustentar, produção, distribuição de flyers, som, luz, contra-regragem. Essa multiplicidade de funções torna Rafuda um dramaturga que consegue pensar nos atores, na luz, no espaço. Seus trabalhos têm a raríssima competência de nos depararmos com um peça com todos os elementos em harmonia.
Seu primeiro trabalho de importância foi Gisberta, o drama da trans brasileira assassinada em Portugal, por encomenda de Luiz Lobianco o qual é fruto de pesquisa. "Adoro as palavras, o som a oralidade. Faço uma lista onde anoto as palavras que não poss esquecer. Tenho fascínio pela linguagem, como contar uma história como se fala", diz Rafuda sobra a raiz de sua dramaturgia.
Rafuda aplica a lógica de ser um brasileiro, que viveu na profundidade do país para falar do seu processo de construção. "As palavras têm peso de significados. Escrever é como criar porco, fecha no cercado, alimenta para o porco crescer e não deixa o porco fugir. Faço o mapa, escrevo na cabeça. Gosto de escrever para os atores. Quando Camila me pediu uma peça, para quatro atores brancos, queria que eu falasse sobre a feminilidade. Juntei o tema dela com a sociedade segregada que vivi em Volta Redonda. Assim surgiu 'Cerca Viva'", aponta Rafuda.
"Jonathan", seu mais novo espetáculo, nasce de uma noticia que leu no jornal. Trata-se da tartaruga mais velha do mundo. No monólogo, Rafuda aborda, com acidez e lirismo, temas como colonialismo, intolerância, moralidade e sobretudo a passagem do tempo. "Aproveitei para na parte ficcionalizada incluir os temas do amor, o preconceito homofóbico da sociedade, a cupidez das pessoas. Tinha medo de atuar. Não gostava da minha voz, do meu corpo. Mas embalei e fiz", lembra Rafuda. "Jonathan é uma linda metáfora de todos os contrastes perversos do mundo atual. A demolição de reputações, a dominação da valores estrangeiros, a solidão acompanhada", continua.
Rafuda forma no grupo dos talentos, ecléticos dramaturgos, com um texto apurado que, segundo ele próprio, tem que ser compreendido e apreciado da mesma maneira pela Tia Ceição e pelo professor doutor. Essa experiência poderosa agora está além do teatro onde em 2023, ganhou o prêmio CBTIJ de Melhor Texto Original pela autoria de "Tá Com Medo de Quê?", dirigido por Renato Carrera.
Rafuda é um trabalhador, daqueles que é todo ano premiado como o melhor do ano. Tem mais de 10 textos encenados nos últimos anos; é autor de quatro contos utilizados na série "Educação Antirracista", do GNT; e foi roteirista em séries adultas para Amazon Prime, Mutishow e HBO Max Brasil.
SERVIÇO
JONATHAN
Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde s/nº - Copabana)
Até 28/7, às quintas e sextas (20h)
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)