Benito di Paula morreu sem ver os 85 anos que a família já tinha começado a celebrar. Em 31 de julho, subiu ao palco da Casa Natura Musical, em São Paulo, para o espetáculo "Benito 85", idealizado pelo filho Rodrigo Vellozo — na mesma noite foi lançado o disco que registrava a homenagem aos 85 anos que ele completaria em 28 de novembro e aos 70 anos de carreira. A noite reuniu música, memória e afeto em torno de sua história. Foi a última aparição pública. Neste domingo (18), por volta das 20h, ele morreu no Hospital 9 de Julho, em decorrência de um câncer de próstata contra o qual lutava havia aproximadamente um ano. Sentiu-se mal no fim da tarde; Rodrigo o levou ao hospital, mas não houve mais tempo.
O velório acontece nesta terça-feira (20), das 9h às 15h, no Theatro Municipal de São Paulo, aberto a fãs, amigos e admiradores. Às 17h, o sepultamento no Cemitério Morumby será restrito aos familiares. Benito deixa os filhos Rodrigo e Thiago Vellozo e duas netas, filhas de Rodrigo.
Benito di Paula era o nome artístico de Uday Veloso, nascido em 28 de novembro de 1941 em Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro. Filho de uma família musical, desenvolveu desde cedo a relação com os instrumentos e com a canção popular. Ainda jovem, começou como crooner em casas noturnas do Rio; depois vieram Santos e São Paulo, onde encontrou o ambiente decisivo para a carreira. Foi na noite paulistana que consolidou a identidade artística e conquistou o público com uma maneira própria de cantar e tocar samba ao piano.
A projeção nacional veio no início dos anos 1970, com o contrato com a gravadora Copacabana e discos que rapidamente encontraram grande repercussão comercial. Em 1973, "Retalhos de Cetim" se transformou no maior marco da carreira: piano em primeiro plano, interpretação emotiva, melodia de forte apelo popular. A canção recebeu gravações de outros intérpretes, no Brasil e fora dele.
Vieram "Charlie Brown", "Mulher Brasileira", "Do Jeito Que a Vida Quer", "Se Não For Amor", "Vai Ficar na Saudade", "Tudo Está no Seu Lugar", "Ah, Como Eu Amei" e "Proteção às Borboletas", composições que combinavam romantismo, cotidiano, humor e crônica social.
Seu diferencial foi levar o piano para o território do samba. Benito construiu uma estética em que o teclado harmônico conduzia a interpretação e estabelecia uma relação particular com a voz. Os gestos eram expressivos, a presença cênica, intensa. Sua obra conversava com o samba tradicional, a canção romântica e o jazz sem abrir mão da comunicação direta com o ouvinte — combinação que o tornou fenômeno popular nos anos 1970 e 1980 e um dos artistas de maior identificação com o público do país.
Assinou parcerias com Chico Anysio, Adoniran Barbosa e Márcio Brandão, e também com os irmãos Jota, Ney e Ana Carolina Veloso. Suas canções foram gravadas por Roberto Carlos, Maria Bethânia e Alcione, e a circulação de "Retalhos de Cetim" entre intérpretes de gerações distintas.
Nos últimos anos, a renovação desse repertório passou pelo próprio filho. Com Rodrigo Vellozo, lançou o disco "O Infalível Zen", em 2021, e atravessou o projeto "Benito 80: Novo Samba Sempre Novo", que reuniu intérpretes de diferentes gerações em torno de suas canções. Em 2025, a escola de samba Águia de Ouro levou sua história e sua obra ao Carnaval de São Paulo.
Em mais de cinco décadas de carreira, Benito gravou dezenas de discos e manteve intacta a identificação com o público — a mesma que tomou a avenida em 2025 e a que faz suas canções serem cantadas hoje.
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