Affonso Nunes
Maria Rita volta ao Vivo Rio neste sábado (10) com "Redescobrir Vol. 2", novo capítulo de um dos projetos mais marcantes de sua trajetória. O espetáculo revisita canções fundamentais de sua formação musical — em grande parte, o repertório que consagrou a mãe, Elis Regina — a partir de um olhar renovado. Além de assinar a concepção artística e musical, a cantora divide com Batman Zavareze a concepção visual, que tem no vermelho, o coração, sua figura central.
O show nasceu de um momento difícil. Em 2024, um burnout já arrastado ficou insustentável depois do roubo do caminhão que levava todo o equipamento de seus shows, acumulado ao longo de mais de 20 anos. Foi preciso parar. "Um dia, estava olhando para o nada, sem rumo, sem entender o que tinha feito de errado e me veio a imagem de um palco branco e eu de vermelho, no centro. Foi um recado mesmo", contou. "Já estava me sustentando com pouco e, com o assalto, eu quebrei", disse em entrevistas.
O diagnóstico a afastou de cena por quase dois anos, com sintomas que iam do esvaziamento da entrega artística ao medo de falhar diante do público. "Medo de dar boa noite para o público, de não lembrar de letra, de travar na boca do palco", descreveu. "Olhava aquele roteiro no chão e falava: 'O que eu estou fazendo?'." A saída foi procurar, como ela mesma define, um refúgio familiar e afetivo. "Levei um tempo até perceber que aquela imagem era um colo, um coração pulsante em cima do palco. Diante de tantos questionamentos, só uma pessoa poderia me fortalecer. Foi uma busca consciente pelo colo da minha mãe."
Se o "Redescobrir" original, de 2012, era uma homenagem a Elis — show e disco ao vivo que renderam o Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB —, este segundo volume inverte a ordem. "Este 'Vol 2' nasce com um imenso desafio pessoal, que gerou impactos inesperados também na minha profissão. Essas dores e questionamentos me levaram a buscar ativamente o acolhimento, o colo de minha mãe. Enquanto o primeiro 'Redescobrir' partiu de um lugar muito específico, de uma homenagem a ela, para os fãs (fossem meus ou delas ou de ambas), este, respeitosamente, é para mim", afirma Maria Rita, em nota do espetáculo. "O repertório, naturalmente, não é o mesmo, mas apresento canções que podem e devem ser redescobertas, re-ouvidas, re-vividas. Se esse show servir para fortalecer a minha alma e minha arte, e renovar esse encontro com o público, mais uma missão estará cumprida."
"É um show para mim, das questões do ofício de cantar num mercado em constante mutação", explica a cantora sobre a virada de chave. "O vermelho é o coração pulsando, com imperfeições, desafios, oscilações, ansiedades, mas também com amor, família, todo o simbolismo de um coração criando, vivendo e sobrevivendo." Em cena, o processo se materializa em versões como "Maria Maria", de Milton Nascimento e Fernando Brant: "Canto 'Maria Maria' chorando porque me sobe um nó. Me leva para um outro lugar agora", comenta.
O repertório da turnê reúne releituras de "Corcovado", "Como Nossos Pais", "Jardins de Infância", "Cais" e "O Bêbado e a Equilibrista", entre outras — e carrega uma herança de que Maria Rita não abre mão. "É difícil deslocar na sonoridade porque há uma identidade forte. Ainda tem a mão do meu pai (César Camargo Mariano) nos arranjos", diz. No palco, ela divide a cena com uma novidade de sangue: Antonio Baldini, seu filho, no violão e na percussão. "Agora estou tocando com meu filho, aquela barriga virou um músico!", diverte-se.
A turnê segue pelo Brasil até dezembro. Maria Rita construiu uma das trajetórias mais consistentes da MPB e uma relação singular com os repertórios que abraça.
SERVIÇO
MARIA RITA - REDESCOBRIR VOL. 2
Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo)
10/11, às 21h
Ingressos a partir de R$ 350 e R$ 175 (meia)
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