Affonso Nunes
"Abênção, maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos" — o verso de Samba da bênção, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, ganha corpo em outubro no Rio. No ano em que Moacir Santos (1926-2006) completaria cem anos, a Casa do Choro recebe, de 1º a 29 do mês, o Festival Moacir Santos 2026, sempre às quartas e quintas, às 19h, no Auditório Radamés Gnattali. Na quarta, 7, o palco é do Rio de Música, que apresenta o resultado de uma imersão dedicada à obra do compositor.
Braço da ONG Rio de Paz, o Rio de Música é uma iniciativa sociocultural da Zona Norte carioca, fundada em 2013 no Jacarezinho, voltada à democratização do acesso à educação musical e à criação de espaços de convivência e pertencimento. Reúne crianças, jovens, adultos e idosos, além de pessoas com deficiência — a ação conjunta de professores, alunos e comunidade já envolveu centenas de pessoas. Em 2026, o projeto dedicou parte de suas atividades ao aprofundamento da obra de Moacir. O concerto de dia 7 apresenta ao público justamente o resultado dessa experiência.
Moacir foi, antes de tudo, o "músico dos músicos": passaram por suas aulas Baden Powell, João Donato, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Airto Moreira e Flora Purim. Nascido em 26 de julho de 1926 em Flores, no Sertão do Pajeú, foi deixado para adoção e salvo pela educação musical: aos 14 anos já tocava vários instrumentos antes de fugir de casa e chegar ao Rio, onde entrou para o elenco da Rádio Nacional no fim da década de 1940. Foi dele "Coisas" (1965), o disco mais cultuado de sua discografia. Mudou-se para os Estados Unidos em 1967 e morreu em Pasadena, em 2006, aos 80. A obra seguiu venerada pelos músicos e pouco conhecida do grande público até o Projeto Ouro Negro (2001), de Mario Adnet e Zé Nogueira, que completa 25 anos em 2026.
O festival tem idealização e curadoria da flautista Andrea Ernest Dias, autora da biografia Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro (Folha Seca/Cepe), com produção da Fulô Cultural. Realizado pela primeira vez em 2013, no Recife, chega à quarta edição mostrando a produção musical carioca em torno do maestro, dos choros de juventude às construções orquestrais. A abertura, no dia 1º, uniu o Andrea Ernest Dias Quarteto a Mario Adnet. No dia 8, o Quarteto Coisas recupera os choros de juventude de Moacir; no dia 14, a Orquestra Balogun aproxima a homenagem das matrizes africanas; no dia 15, Henrique Band lidera o coletivo "Moacir 360º"; no dia 21, a Orquestra Pro Arte retoma sua homenagem de 2004; no dia 22, o Água de Moringa homenageia os mestres de Moacir, Radamés Gnattali e Guerra-Peixe. O encerramento, nos dias 28 e 29, reúne a Orquestra Furiosa Portátil e o clarinetista Nailor Proveta, veterano das gravações de Ouro Negro.
SERVIÇO
FESTIVAL MOACIR SANTOS 2026 — RIO DE MÚSICA
Casa do Choro (Rua da Carioca, 38, Centro)
7/10, às 19h
Ingressos: R$ 80 e R$ 40 (meia)
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