Uma conversa pode prescindir de palavras. Pode? Pode sim! Principalmente se este papo envolver dois talentosos instrumentistas como Nelson Faria e Sandro Haick, dois dos mais respeitados guitarristas brasileiros da atualidade. Reundos em Bari (Itália), eles gravaram tanta coisa juntos que ficou até difícil descartar material. O resultado chama-se "Talking Standards" (Bobo Records), álbum duplo. O primeiro volume traz recriações de temas estrangeiros; o segundo, releituras de composições brasileiras.
Produzido pelo também guitarrista Antonello Boezio, o disco reúne 14 faixas, sete por volume. O primeiro reúne temas imortalizados por lendas do jazz e da composição para o cinema — Thelonious Monk em "Round Midnight", Sonny Rollins em "Tenor Madness" e "Blue in Green", assinada por Miles Davis e Bill Evans. O volume brasileiro honra Milton Nascimento ("Tarde", com Marcio Borges) e três mestres com dois temas cada: Tom Jobim ("Desafinado" e "Insensatez"), Dominguinhos ("Princesinha no Choro" e "De volta pro Aconchego", esta com Nando Cordel) e João Bosco ("Incompatibilidade de gênios", com Aldir Blanc, e "Papel Machê", com Capinam). A sensibilidade do encontro dessas guitarras é de encantar os ouvidos mais exigentes.
A admiração entre os dois é antiga, mas eles só haviam tocado juntos uma vez, em 2019, quando Haick compareceu a "Um café lá em casa", série que Nelson apresenta na web — e como baixista. Foi preciso uma guitarra para reaproximá-los. Em 2025, a Tagima lançou a Nelson Faria Signature Jazzy 1, apresentada no Tagima Dream Team com show de Faria. Na banda, de novo, Haick. No mesmo ano, a fabricante batizou a Tagima Haick-1. Com o elo em comum, veio a ideia de fazerem algo com os instrumentos que os celebraram. Por que não um álbum?
Mas por que na Itália? Haick e Faria são também professores, e suas aulas remotas atraem músicos do mundo inteiro. Em 2016, um guitarrista italiano chamado Antonello Boezio inscreveu-se no curso de Haick. Mestre e aluno viraram amigos, e Antonello produz o projeto e ofereceu o MAST, seu estúdio-escola referência em Bari, na Puglia, para onde os brasileiros rumaram.
Da lista original de 40 temas, a seleção final de 14 foi fechada no aeroporto de São Paulo. Gravados em dois dias e meio, os arranjos foram definidos no estúdio, e a grande maioria das faixas saiu num único take. "O disco foi todo gravado num clima muito descontraído, improvisado, numa dinâmica como o jazz pede. Tudo aconteceu de forma muito espontânea. Acho que este trabalho é o que toco mais à vontade em relação aos meus discos todos", pontua Nelson. Da alegria pelo encontro, ele não esquiva: "A fluência e a informação que o Sandro tem criam um ambiente em que você pode dar o seu melhor".
E a convivência em estúdio confirmou algo que ambos já suspeitavam — ouviram os mesmos discos na juventude e foram influenciados pelas mesmas escolas musicais. "Ao ouvirmos as faixas, chegamos a nos perguntar: essa levada foi minha ou sua? E isso só demonstra que estávamos a serviço daquela iniciativa", explica. "O resultado dessa união foi forte e ela acontece em prol da música", arremata.
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