A primeira guitarra daquilo que viria a ser o Tinariwen foi montada com uma lata de óleo, um cabo de vassoura e arame de freio de bicicleta, nos acampamentos tuaregues entre o Mali e a Argélia. Quatro décadas depois, o coletivo que fez do "desert blues" uma linguagem universal e ganhou um Grammy desembarca no Rio de Janeiro para fechar, no domingo, a programação musical da 9ª edição carioca do MIMO Festival, nos dias 19 e 20 de setembro, sob a lona do Circo Voador — com entrada gratuita, por ordem de chegada.
A edição, que integra a Semana de Arte do Rio com patrocínio da Prefeitura, reúne oito shows e DJ sets ao vivo e, em paralelo, o Festival MIMO de Cinema, instalado no Cine Santa Teresa, primeiro cinema do bairro e um dos últimos cinemas de rua remanescentes da cidade, onde serão exibidos 15 documentários musicais. A receita é a de sempre de um festival que, desde 2015, espalhou 66 edições por 16 cidades do Brasil e da Europa e juntou 2,1 milhões de pessoas: música, imagem e conversa ocupando o espaço público.
No sábado, o palco abre com o DJ Machintal e passa por Gabriela Leite, vencedora do Prêmio da Música Brasileira 2026 na categoria Melhor Lançamento Erudito, antes de Fernanda Abreu subir para celebrar os 30 anos de "Da lata" (1995), o disco que misturou funk carioca, disco, hip-hop e samba e transformou a mais carioca das cantoras em primeira-dama do pop de dança nacional.
À meia-noite e meia, é a vez de Tiken Jah Fakoly, a voz mais incômoda e luminosa do reggae africano, direto da Costa do Marfim, levando ao palco as denúncias e esperanças que o gênero sempre carregou. A madrugada fica por conta da norte-americana DJ Reborn, DJ oficial de Lauryn Hill, num set que atravessa hip-hop, soul, funk e sonoridades da diáspora africana.
O domingo começa mais cedo, às 18h, também com Machintal, e traz logo o encontro instrumental entre a pianista brasileira Bianca Gismonti e o violonista português Manuel de Oliveira — diálogo de cordas e teclas que o MIMO sabe montar como poucos. Às 20h, Capicua apresenta seu show com participação especial de Emicida, retomando no palco uma parceria de longa data que já rendeu faixas memoráveis no projeto "Língua Franca", confirmando como o português daqui e de lá rima melhor juntos. Encerra a noite, às 22h, o Tinariwen, formado em 1979 no Saara, cujo tishoumaren — guitarra elétrica sobre ritmo tuaregue, blues de deserto com relatos de exílio e rebelião — inspirou uma geração inteira de músicos do norte da África.
"Voltar ao Rio de Janeiro a convite da Prefeitura do Rio, agora para integrar a Semana de Arte do Rio, é uma grande alegria. É uma iniciativa de grandes dimensões, à altura da potência cultural do Rio e do que a cidade merece. O MIMO chega com uma programação forte, reunindo grandes artistas do Brasil e do mundo, e estamos muito felizes em fazer parte desse movimento que coloca a arte e a cultura no centro da cidade", afirma Lu Araújo, idealizadora e diretora do MIMO Festival.
No Cine Santa Teresa, a programação paralela cobre dois dias de sessões às 16h, 18h e 20h, com documentários que vão de samba de roda em Pernambuco ("Samba de Latada", de Josildo Sá) e bregueces na Bahia ("Bregueragem") a retratos de figuras centrais da música brasileira como Letieres Leite ("As Travessias de Letieres Leite"), Dona Onete ("Dona Onete — Meu Coração Neste Pedacinho Aqui") e Baby do Brasil ("Apopcalipse Segundo Baby"), além de "Duque de Caxias, o Albergue do Rock" e "Black Future, Eu Sou o Rio", sobre a cena carioca.
SERVIÇO
MIMO FESTIVAL*
Circo Voador (R. dos Arcos, s/nº, Lapa)
19/9 - 20h: DJ Machintal, 20h30: Gabriela Leite, 21h30: Fernanda Abreu, 23h30: Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) e 1h: DJ Reborn (EUA)
20/9 - 18h: DJ Machintal, 18h30: Bianca Gismonti & Manuel de Oliveira (Brasil/Portugal), 20h: Capicua, com participação especial de Emicida (Brasil/Portugal) e 22h: Tinariwen (Mali)
*As sessões do Festival MIMO de Cinema acontecem no Cine Santa Teresa, às 16h, 18h e 20h
Grátis
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