Affonso Nunes
Especial para o Correio da Manhã
Desde sua criação, nos idos de 1985, o Rock in Rio adotou o discurso da inclusão. E essa história ganha uma página especial nesta sexta-feira (11) no palco Artist Village. Aos 23 anos, João Pedro Rocha, o JP, fará sua estreia no festival carregando uma conquista que ultrapassa sua própria trajetória: será a primeira vez que um DJ com síndrome de Down ocupará um dos palcos do evento.
Mas JP não chega ali apenas para representar uma causa. Chega para trabalhar. Primeiro DJ profissional com síndrome de Down no Brasil, ele construiu em apenas dois anos uma carreira que já passou por festivais, turnês e apresentações para milhares de pessoas. No repertório, mistura samba, MPB, pop e funk com a preocupação essencial de qualquer DJ: entender quem está do outro lado da cabine. "Gosto de ver o público animado, de ver que as pessoas estão curtindo o meu som", resume.
A música entrou em sua vida muito antes de virar profissão. Criado numa família musical, JP cresceu entre festas, shows, rodas de samba e blocos de rua. Foi ouvindo ritmos diferentes e convivendo com DJs que começou a formar o repertório que hoje leva às pistas. O passo profissional veio em 2024, quando conheceu Rafael Nazareh, DJ e produtor responsável pela formação de DJs na Aimec. Professor e aluno precisaram descobrir juntos a melhor maneira de desenvolver o aprendizado.
"Tem sido uma trajetória impressionante, ao mesmo tempo divertida e lúdica. Nós encontramos a melhor forma para ele aprender e seguir na profissão. Hoje ele está apto para conduzir a pista para muitas pessoas, com todas as ferramentas e possibilidades", atesta o professor.
E as pistas não demoraram a crescer. A estreia profissional aconteceu no CasaBloco, no Jockey Club, em 2025. No início deste ano, JP chegou a Recife, onde abriu apresentações de Elba Ramalho e do Galo da Madrugada. Em duas noites na Praça do Arsenal, tocou para mais de 20 mil pessoas.
Depois vieram o Festival Harmonia, no Rio, e um convite de Geraldo Azevedo. Entre abril e julho, JP abriu os oito shows da turnê "Oitentação", criada para celebrar os 80 anos do cantor e compositor. Passou por diferentes capitais e por palcos como o Teatro Unimed, em São Paulo, e a Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador.
Também dividiu a programação da abertura da Árvore de Natal da Lagoa com a Orquestra Sinfônica Petrobras e participou do projeto "Música no Deck", em São Conrado. Cada apresentação acrescentou experiência a uma carreira ainda muito jovem — e tornou o sonho que agora se realiza um pouco menos improvável.
Porque a importância da estreia no Rock in Rio talvez esteja justamente aí. Inclusão ganha outro significado quando deixa de ser apenas discurso e passa a significar acesso real à formação, ao trabalho e aos grandes palcos. JP não estará diante do público como alguém a quem foi permitido sonhar mas, principalmente, porque se preparou para ocupar espaços com sua vocação.
Ele próprio sabe o tamanho simbólico do momento. "Eu nunca poderia imaginar que um dia eu chegaria ao Rock in Rio, convidado para um trabalho como este, que vai mostrar meu trabalho para tanta gente! E também de como ser uma pessoa com síndrome de Down não me impede de fazer o que eu quiser", afirma.
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