Música

As melodias do Cancioninski

Estrela Leminski amplia a pesquisa com "Completamente Poeta - Leminskanções 2", disco de feição artesanal que reúne melodias inéditas de seu pai Paulo Leminski, o Bardo de Curitiba

As melodias do Cancioninski
Paulo Leminski (1944-1989) é dono de obra múltipla de poemas, ensaios, traduções, letras musicais e até melodias Crédito: Nani Gois

O curitibano Paulo Leminski Filho (1944-1989) entrou para a história da cultura brasileira como um de seus poetas mais fulgurantes e como letrista de canções que passaram pelas vozes de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Arnaldo Antunes e Ângela Maria. O que pouca gente sabia até 2014 era que o poeta também compunha melodias — e que deixou um acervo de aproximadamente 80 canções, muitas escritas em parceria, algumas nunca gravadas.

Foi justamente esse universo que sua filha, Estrela Ruiz Leminski, escavou no álbum duplo "Leminskanções", lançado há doze anos, quando o Brasil celebrava os 70 anos do poeta. Agora, ela dá um novo capítulo à pesquisa com "Completamente Poeta - Leminskanções 2", que chega às plataformas digitais e em CD neste sábado (22). No dia seguinte, às 18h, o projeto sobe ao palco do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, com participação especial de Guilherme Arantes.

O título do álbum guarda uma ironia que é toda do próprio Leminski. "Completamente Poeta" é também o nome de uma de suas canções e sintetiza o espírito do projeto: mostrar que, para além da literatura, a produção musical sempre ocupou um lugar central em sua criação. Como registram biografias como "O Bandido que Sabia Latim", de Toninho Vaz, Leminski aprendeu violão cedo, chegou a formar o trio Duas Pauladas e Uma Pedrada com o irmão Pedro e o amigo Paul Bahr, e em 1972 criou um projeto chamado "Em Prol de um Português Elétrico". Embora fosse, segundo biógrafos, desafinado e não dominasse o instrumento com propriedade, compunha com instinto e inventividade — daí o apelido carinhoso "Cancioninski" que estudiosos atribuem a essa faceta.

Macaque in the trees
Estrela Ruiz Leminski resgata o lado melodista do pai no segundo volume de 'Completamente Poeta' | Foto: Carol Bassani/Divulgação

"O que permeia esse trabalho é a intimidade. Cresci ouvindo essas canções dentro de casa. Todo mundo conhece o universo racional do meu pai, a poesia, os textos, mas a música revelava seu lado mais afetivo, mais emocional. Este é um disco profundamente amoroso. É um gesto de amor à vida, ao meu pai, à nossa história como família, a mim como filha e também à Alice", afirma Estrela, referindo-se à mãe, a poeta Alice Ruiz, com quem Leminski construiu uma das parcerias mais férteis da literatura brasileira.

As onze faixas do disco refletem tanto a densidade quanto a diversidade dessa obra. Nove são composições de Leminski; uma delas apresenta um poema de Vladimir Maiakóvski traduzido por Haroldo de Campos e musicado pelo poeta — diálogo que não surpreende, dado o trânsito de Leminski entre a tradição russa, a poética concretista e a contracultura brasileira.

Outra faixa revisita "Xixi nas Estrelas", clássico infantil nascido da parceria com Guilherme Arantes em 1984, quando o compositor foi convidado para a trilha de "Pirlimpimpim 2". A canção, que usa humor e linguagem infantil para falar de respeito pelo universo, tornou-se uma das marcas da dupla.

A produção musical é assinada por Gustavo Ruiz, vencedor de prêmios Grammy e filho do jornalista e músico Luiz Chagas — um dos primeiros a reconhecer e admirar a produção musical de Leminski em vida. Ao lado da direção musical de Téo Ruiz, Gustavo construiu arranjos que aproximam as composições de uma estética pop contemporânea, sem trair a força literária e melódica das canções. A base instrumental reúne ainda Danilo Penteado e Gabriel Basile, integrante da banda O Terno. O elenco de convidados evidencia a amplitude estética da obra leminskiana: Manoel Cordeiro, Maurício Badé, Léo Fressato, Janine Mathias, Maurício Pereira, Vítor Ramil, Guilherme Arantes, Tulipa Ruiz e Ná Ozzetti.

Mas "Completamente Poeta" propõe também uma reflexão sobre os modos de produzir arte. Em um momento em que processos criativos são cada vez mais mediados pela inteligência artificial e pela produção digital, Estrela decidiu seguir o caminho oposto. Todo o conceito visual do álbum foi desenvolvido artesanalmente, com papel, colagens, fotografias em filme, selos, texturas e impressão em risografia. A escolha dialoga diretamente com o universo vivido por Leminski, que escreveu em máquina de escrever, produziu manuscritos em papel e viveu antes da presença cotidiana dos computadores. A capa, assinada por Luísa Barros, utiliza colagens feitas manualmente, enquanto o encarte resgata uma estética inspirada nas décadas de 1970 e 1980, recriando visualmente o ambiente artístico em que o poeta viveu e produziu.

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Estrela Ruiz Leminski resgata o lado melodista do pai no segundo volume de 'Completamente Poeta' | Foto: Divulgação

Doze anos após o primeiro "Leminskanções" — que resultou também em um songbook com mais de cem canções do poeta —, Estrela reafirma que o legado de Leminski extrapola os livros de poesia. Há ali um cancioneiro que resiste, que dialoga com o presente e que continua sendo descoberto, como se o poeta, três décadas e meia após sua morte, ainda tivesse canções para oferecer.