Música

'Quem gosta de Djavan só pode buscar Djavan em mim'

Cantor e compositor chega ao Rio para três apresentações esgotadas de turnê que resgata 50 anos daquilo que Caetano um dia chamou de 'djavanear o que há de bom'

'Quem gosta de Djavan só pode buscar Djavan
em mim'

Affonso Nunes

Ele compõe exaustivamente e bem que poderia descansar aos 76 anos. Mas Djavan prefere comprar briga com o tempo. "Física mesmo. Dói a perna, dói o quadril. Você fica ali absorto naquilo. E tem também a coisa do pensar, de mergulhar nas histórias", disse o cantor em entrevista antes de estrear em São Paulo a turnê que celebra meio século de carreira. O espetáculo, batizado "Djavanear 50 anos. Só Sucessos", lotou o Allianz Parque em 9 de maio — 45 mil pessoas cantando cada letra na ponta da língua — e chega ao Rio para três apresentações (1, 2 e 8/8) na Farmasi Arena. Os ingressos já se esgotaram.

O percurso de Djavan Caetano Viana é daqueles que o Brasil gosta de contar. Alagoano de Maceió, filho de uma lavadeira que cantava enquanto passava roupa e compunha versos para cada filho que nascia, o menino cresceu envolto nas vozes de Orlando Silva e Ângela Maria no rádio, mas também com os pés na bola — chegou a integrar o time juvenil do CSA. Aos 13, um acaso o colocou diante da discoteca de Ismar Gatto, um médico amigo do colega de colégio: jazz, música americana, francesa, flamenca. "Aquilo me trouxe tudo", recorda. A certeza veio aos 16, quando descobriu o instrumento. O futebol perdeu um meio-campista. A MPB ganhou um dos seus nomes maiores. E foi a mãe, Dona Virgínia, quem selou o destino: "Ela cantava, fazia versos, fazia uma música para cada filho. Minha mãe me ensinou tudo. Disse pra mim: 'Filho, você vai ser cantor'."

Em 1976 veio "A Voz, o Violão, a Música de Djavan", um álbum de um jovem artista nordestino fadado a alguns elogios da crítica mas sem chegar ao grande público. Ledo engano. Desde então, são quase 30 álbuns de estúdio, incontáveis coletâneas, quatro Grammys Latinos e uma coleção de canções que o próprio define como "pessoal, intransferível".

Produtores no início duvidavam do potencial popular de suas composições. Críticos achavam as letras indecifráveis. Meio século depois, ele reage com a ironia de quem viu o tempo dar razão a si próprio: "Desde o início, eu sabia que ia ter grandes dificuldades por ser um artista diferenciado. O que eu sempre fiz não está no radar. O que eu faço, só eu faço. Quem gosta de Djavan só pode buscar Djavan em mim. Não dá para conceber um artista tão popular como eu, estranho. Estranhos são os outros", diverte-se.

Não é pouca ousadia montar uma turnê em estádios e arenas aos 76 anos. Na última, a do disco "D", Djavan já enfrentava plateias de 20 a 40 mil pessoas. "Tem uma logística própria para lidar com aquele cenário, com aquele volume imenso de gente, aquele som altíssimo no seu ouvido — parece que o mundo vai desabar na sua cabeça. Mas a gente está acostumado com isso já. Mas o nervosismo pré-show, garante, permanece. E é bem-vindo: "Fico. E acho o nervoso bom. Quero que seja uma coisa que, quando eu voltar para casa, eu volte feliz."

O repertório promete pelo menos 25 canções que atravessam toda a discografia — "Sina", "Oceano", "Um Amor Puro", "Se…", "Eu Te Devoro", "Samurai", "Flor de Lis" e "Açaí" entre as certas. "Eu tenho uma discografia muito visitada. O meu lado B quase todo mundo conhece", observa, ao explicar que o show visa colocar em voga "toda uma trajetória que eu considero bem-sucedida". Tem ainda o que ele chama de "código djavânico" — aquela qualidade reconhecível entre os fãs, pelo qual "as pessoas conhecem e gostam de participar ouvindo as novas ou as antigas". Com direção artística de Gringo Cardia, o espetáculo tem desenho de luz de Césio Lima, Mari Pitta e Sérgio Almeida. No palco, Djavan (voz, violão e guitarra) chega acompanhado de banda afiada: Felipe Alves na bateria, Marcelo Mariano no baixo, Torcuato Mariano na guitarra e violão, Paulo Calasans e Renato Fonseca nos teclados, e a seção de sopros com Jessé Sadoc (trompete e fluguelhorn), Marcelo Martins (sax tenor e flauta) e Rafael Rocha (trombone).

A turnê não esgota as comemorações do cinquentenário. Em novembro de 2025, Djavan colocou nas plataformas "Improviso", seu 26º álbum de estúdio — doze faixas pela Luanda Records / Sony Music, onze inéditas, quase todas escritas nos últimos meses. O verso "Ir atrás do amor é um jazz", de "Um Brinde", dá a chave do disco: os movimentos não programados, o balé imprevisto das relações de amor. Entre as faixas, "O Vento" resgata uma parceria antiga com Ronaldo Bastos e serve de homenagem a Gal Costa; outra canção quase foi gravada por Michael Jackson a convite do próprio, nas sessões de "Bad".

Uma biografia, "Djavan — dizem que o amor atrai", também chega às livrarias neste ano, com depoimentos de familiares e informações inéditas sobre a trajetória pessoal e musical do artista.

Perguntado sobre o que enxerga pela frente, não hesitou: "O que eu vejo é que a minha predisposição de compor e criar novas canções se mantenha intacta. É isso que me mantém na vida: fazer canções novas, cantar e levar essa música para um público tão diverso e tão generoso comigo". E o álbum "Improviso" não lehe deixa mentir.

SERVIÇO

DJAVANEAR - 50 ANOS. SÓ SUCESSOS

Farmasi Arena (Av. Embaixador Abelardo Bueno, 3401 - Barra Olímpica) | 1, 2 e 8/8, às 21h

Ingressos esgotados