Localizada na Vila Kennedy, entre Bangu e Senador Camará, a Vila Kennedy não figura em guias guias turísticos ou roteiros culturais cariocas. Mas sua cultura pulsa sim. Foi lá, numa igreja católica, que três jovens descobriram que suas vozes tinham algo a dizer umas às outras — e ao mundo. Ge Vieira, José Junior e Negra Silva não tinham plano, manager ou gravadora. Só voz, disposição e a intuição de que aquele encontro podia ir além do bairro.
Dezesseis anos depois daquele primeiro encontro, o trio Soul de Brasileiro lança "Sou", seu primeiro álbum, que chega às plataformas digitais nesta quarta-feira (29), pelas mãos do Selo Toca Discos (um celeiro vivo de novos talentos musicais), com distribuição da Universal Music. Junto ao disco, estreia o videoclipe de "Oxum Rabane". "Esse álbum tem a nossa cara, é fruto da nossa maturidade, da nossa bagagem artística. Estamos prontos pra levar a nossa arte para esse mundão afora", avisa Negra Silva.
A caminhada foi longa, como costuma ser para jovens artistas periféricos, mas ptoveitosa: o trio foi finalista do Favela Festival em 2011, parceria entre Rede Globo e CUFA Rio. Negra Silva, José Junior e Ge Vieira chegam ao disco de estreia num momento de maturidade rara para um primeiro longa. Os singles anteriores ("De Onde Eu Vim", "Minha Vibe", "Aí Tem Coisa") já descortinavam o trabalho. As canções autorais de "Sou" partem da sofistiação melódica R&B para se conectar em outras paragens musicais como o soul, MPB, samba e sonoridades afrodiaspóricas. É uma conversa de gente grande com momes como Cassiano, Tim Maia, Sandra Sá, Jorge Ben, Marvin Gaye, Lauryn Hill, Jill Scott, Fela Kuti e Erykah Badu. As referências não poderiam ser melhores.
A gravação ocorreu no Toca do Bandido, estúdio fundado pelo produtor Tom Capone no Itanhangá, responsável por discos de Lenine, Milton Nascimento e O Rappa. A direção artística é de Constança Scofield, a produção musical de Felipe Rodarte — dupla à frente do Selo Toca Discos. O contato entre eles aconteceu em 2023, durante a segunda edição do programa Aceleração Musical Labsonica Toca do Bandido, que já impactou a carreira de 42 artistas. O trio participou de um songcamp, gravou três singles, uma live session e um ensaio fotográfico. "Eles trouxeram uma safra de composições que aprofundavam justamente a identidade que vínhamos lapidando juntos", conta Constança. O resultado, segundo ela, se estrutura em três eixos: baladas românticas, identidade e ancestralidade, pertencimento e afirmação.
Uma das participações que melhor sintetizam o ábum é a do trombonista Josiel Konrad em "Aí Tem Coisa", que contribui para a pegada do soul setentista na faixa.
Paula Lima aparece em "Eu Segui". José Junior revela que o convite nasceu de um afeto antigo. "Quando finalmente nos conhecemos pessoalmente, a conexão foi tão natural que ela aceitou o convite antes mesmo de saber qual seria a música". A participação de Hiran, rapper baiano, veio por via do álbum "Imundo". "Sentimos que ele era a voz certa", diz José Junior. "Ele nos enviou, em tempo recorde, uma poesia poderosa, com sua voz marcante e inconfundível."
"O álbum reflete quem somos hoje, principalmente nossa humanidade e nossas contradições. Queremos cantar sobre o que vivemos e observamos num Brasil de muitas nuances", reflete Ge. "Tudo o que cantamos nasce das nossas vivências, das nossas raízes. É isso que buscamos construir: uma música que emocione, represente e conecte as pessoas", emenda José.
Os integrantes do trio estudaram canto lírico, passaram pelo teatro e cinema. Integraram o projeto internacional Playing For Change ao lado de Gilberto Gil, Manu Chao, Jack Johnson e Stephen Marley, e foi apadrinhado por Sandra Sá na produção do EP "Ciclo4i" (2021).
O caminho até aqui inclui ainda a parceria com Elisa Lucinda no single "Diamante". Apesar da cancha adquirida em todo esse tempo, os três cantores respiram ansiedade pelo 12 de setembro, dia em que ocuparão o Espaço Favela do Rock in Rio, um dos maiores festivais do planeta. E, com certeza, sairão de lá maiores e com reconhecimento nacional.
Menu